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A absurda guerra na saúde

O Estado de S.Paulo

30 Agosto 2014 | 02h 04

Que 93% dos entrevistados considerem o desempenho dos serviços públicos e privados de saúde no Brasil regulares, ruins ou péssimos impressiona, mas não surpreende. Os dados de pesquisa encomendada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e pela Associação Paulista de Medicina (APM) constatam o que salta aos olhos de quase todos.

Ao divulgarem a pesquisa, o CFM e a APM destacaram que a saúde é tida como a área mais importante por 87% dos brasileiros; que para 57% merecia ser prioritária para o governo federal; e que os principais problemas enfrentados pelo setor são filas, falta de acesso aos serviços e má gestão. Feita entre os dias 3 e 10 de junho passado, com consulta a 2.418 homens e mulheres com idade mínima de 16 anos e com margem de erro de dois pontos porcentuais, o levantamento constata que os pontos críticos do Sistema Único de Saúde (SUS) são acesso ao atendimento e tempo de espera. Disseram-se insatisfeitos com a qualidade dos serviços da saúde pública 70% dos entrevistados, que atribuíram avaliações variando de regular a péssimo, e a percepção mais negativa diz respeito ao atendimento em urgências, emergências e em prontos-socorros. Pelo menos 30% desses disseram que esperam ou têm alguém na família em filas no aguardo de marcação ou realização de algum procedimento na rede pública. Mesmo entre os que declararam dispor de plano de saúde, 22% aguardam algum tipo de atendimento no SUS.

A pesquisa concluiu também que duas em cada dez pessoas ouvidas foram atendidas no prazo de um mês e 29% esperam há mais de seis meses para ter sua demanda atendida. O grupo que passa mais tempo na fila é composto por mulheres com idade entre 25 e 55 anos, que concluíram o ensino fundamental e moram no Sudeste.

Segundo o presidente do CFM, Roberto Luiz d'Ávila, a pesquisa mostra que não são apenas os médicos que continuam afirmando que a insatisfação é muito grande. "No nosso meio, temos certeza absoluta de que esse atendimento é insatisfatório. E eu diria mais: é prejudicial", afirmou. Para o vice-presidente do conselho, Carlos Vital, "vivemos uma fase de agonização desse problema nos últimos 12 anos. Orçamento e administração são os principais problemas. Não podemos continuar nossa espera. Vidas humanas se perdem nesse processo".

Na verdade, os serviços de saúde no Brasil já eram deficientes antes dos 12 anos por ele citados, que correspondem aos três mandatos de presidentes petistas, oito sob Lula mais quatro sob Dilma. É fácil perceber o clima de antagonismo entre os conselhos médicos e o governo federal, agravado depois da contratação de 14 mil profissionais cubanos para atender em cidades do interior.

A nota com que o Ministério da Saúde reagiu à divulgação dá um exemplo do ponto a que chegou tal antagonismo. De acordo com o Ministério da Saúde, o Conselho Nacional dos Secretários de Saúde e o Conselho Nacional das Secretarias Municipais da Saúde, que assinam o texto, a mesma pesquisa "aponta avanços como acesso superior a 84% na maioria dos tipos de serviços avaliados. Das pessoas que procuram os postos de saúde, 91,3% conseguiram atendimento, o que demonstra os bons resultados de estratégias como o Mais Médicos". De acordo com os signatários, "dos que utilizaram o SUS, 74% avaliam a qualidade de atendimento com nota superior a 5, sendo que um terço dos entrevistados deram notas entre 8 e 10". A conclusão é: "Lamentamos a interpretação tendenciosa e parcial dos dados e o esforço do CFM na tentativa de desconstrução do SUS".

O problema é que esta guerra estatística em nada melhora a avaliação do atendimento de saúde no País. A própria presidente Dilma Rousseff, em entrevista ao Jornal Nacional da Rede Globo, reconheceu que a saúde pública "não é" minimamente razoável. E a pesquisa divulgada pelos conselhos chega a conclusão similar em relação ao atendimento privado. Não seria o caso de médicos e autoridades deporem as armas e tentarem atender melhor os pacientes que deles necessitam?

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