A apologia da violência

Jair Bolsonaro conseguiu revelar em entrevista as nuances mais sórdidas de um comportamento que ele certamente entende como político, mas que não passa da manifestação de quem defende o uso da violência para atacar tudo o que não se compatibiliza com sua doentia visão de mundo

O Estado de S.Paulo

19 Março 2017 | 05h00

"Você não combate violência com amor, combate com porrada, pô.” “Se eu chegar lá um dia (na Presidência da República), vou botar militares em metade dos Ministérios, gente igual a mim.” “Não é a imprensa nem o Supremo que vão falar o que é limite para mim. Vão catar coquinho!” “Por isso que essa porra desse país está nessa merda aí.” Essas boçalidades marcam a entrevista dada à Folha de S.Paulo pelo deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) que, além da ostensiva e gratuita falta de respeito à profissional que o entrevistava, não teve o menor escrúpulo de sugerir que falava em nome dos militares, numa irresponsável tentativa de comprometer as Forças Armadas com a insensatez e a truculência de seu populismo rasteiro.

Jair Bolsonaro conseguiu revelar na entrevista as nuances mais sórdidas de um comportamento que ele certamente entende como político – de um político que se considera habilitado a sonhar com a Presidência da República –, mas não passa da manifestação descontrolada de quem defende o uso da violência para atacar tudo o que não se compatibiliza com sua doentia visão de mundo. É célebre a frase com que o deputado – que a repetiu na entrevista – repreendeu os torturadores que deram chance aos “vagabundos” que passaram por suas mãos de se “vitimizarem” em declarações posteriores: “Isso que dá torturar e não matar”. 

Classificar o deputado do Rio de Janeiro como apenas mais uma das figuras “excêntricas”, “exóticas” ou “extravagantes” que compõem o setor mais sombrio do cenário político brasileiro seria cometer um grave equívoco. O equívoco de não levar em conta o potencial da pregação da violência no momento em que, padecendo os efeitos de uma grave crise econômica, política, social e moral, o País se torna excepcionalmente vulnerável à conspiração contra os valores éticos e morais que a incipiente democracia brasileira luta para firmar. 

Bolsonaro não aprendeu nada com a experiência autoritária que o País experimentou por mais de 20 anos. As próprias Forças Armadas acabaram se dando conta de que haviam extrapolado os limites da rejeição ao totalitarismo comunista e à corrupção endêmica, que foram dois dos principais pretextos de sua intervenção em 1964, e optaram por aceitar, depois de um longo período de “distensão lenta e gradual”, o restabelecimento das liberdades democráticas. Hoje, dando exemplo de genuíno patriotismo, os militares se dedicam a suas responsabilidades institucionais. Não merecem que um oportunista retrógrado, visivelmente obcecado pelo poder, tenha a ousadia de se apresentar como porta-voz dos quartéis.

O deputado pelo Rio de Janeiro – Estado infelizmente perseguido pelo estigma de abrigar algumas das piores figuras da atual política brasileira – exibe características marcantes de um comportamento antissocial que não se limita a infringir os princípios mais elementares da civilidade. Sua obsessão pela força bruta – a “porrada” que ele preconiza para enfrentar a violência – vem associada, na entrevista, a outros estranhos sintomas de exacerbação de gênero. Dizem que há cura para isso.

O que é lamentável é que figura assim, cujo universo mental se resume a caçar inimigos a porradas, inspire empatia em parte da população. Seu nome surge com cerca de 9% de citações em pesquisas de opinião sobre o primeiro turno das eleições presidenciais de 2018. Há quem diga que isso e nada significam a mesma coisa. Mas o fato é que a pregação sistemática da violência solapa a democracia. E, no limite, cria as condições subjetivas para o surgimento de um líder messiânico – é assim que Bolsonaro se apresenta – como tantos que já infelicitaram o Brasil.

As mesmas pesquisas de opinião que dão 9% de preferência ao deputado Bolsonaro registram grande índice de rejeição a seu nome. Essa rejeição tenderá a aumentar o entendimento, pelo público, dos males que alguém com a personalidade de Bolsonaro pode causar ao País, se galgar postos mais elevados do que permite sua mediocridade.

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