A Argentina sob tumulto

Em seu primeiro pronunciamento após a onda de saques ao comércio e ataques a residências particulares em 16 das 24 províncias da Argentina, desencadeada por greves sucessivas de forças policiais, a presidente Cristina Kirchner atribuiu a violência a uma ação planejada "com precisão cirúrgica". "Eu não sou ingênua, não acredito em casualidades. Tampouco acredito em fatos que se produzem por contágio." Em discurso pronunciado terça-feira, dia 10, na solenidade comemorativa dos 30 anos do retorno da Argentina à democracia, a presidente acusou grupos políticos de incitarem insegurança para "desgastar a democracia", lembrando que distúrbios costumam ocorrer ao aproximar-se essa data.

O Estado de S.Paulo

13 Dezembro 2013 | 02h09

A violência é absolutamente inaceitável, assim como a indisciplina de forças encarregadas de manter a ordem, que estimulou ataques à propriedade privada, com 1.888 estabelecimentos saqueados, levando a prejuízos estimados em US$ 100 milhões pela Federação Argentina de Empresas (Came). Contudo, atribuir os acontecimentos recentes, que estão entre os mais traumáticos ocorridos no país vizinho nos últimos anos, a uma conspiração política antidemocrática é exagero.

As forças de segurança detonaram um movimento amplo, a partir da paralisação de policiais na semana passada na Província de Córdoba, reivindicando melhores salários. Na ausência de segurança pública, grupos de vândalos utilizaram as redes sociais para organizar saques, gerando confronto com lojistas e moradores com 12 mortes e centenas de feridos em uma semana.

Para abafar o movimento grevista, os governos de várias províncias mais atingidas pelos ataques rapidamente concederam aumentos a seus policiais, que, se não chegaram ao que pretendiam, foram suficientes para convencê-los a voltar ao trabalho. Outros governos provinciais resolveram tomar a mesma medida preventivamente.

Não se trata, porém, de um problema pontual, envolvendo uma categoria profissional. A greve dos policiais é sintoma de uma insatisfação generalizada. Entre suas causas, está uma inflação entre 25% e 30% ao ano, segundo analistas independentes, que corrói os salários e faz crescer a frustração dos trabalhadores às vésperas das festas de fim de ano. Como é notório, o governo há anos manipula o índice de preços ao consumidor, o que tem afetado a credibilidade de sua política econômica inclusive no plano internacional.

Em face da crise que a Argentina atravessa, o governo Kirchner tem buscado aproximar-se do Fundo Monetário Internacional (FMI), que deu prazo até março para revisão dos dados econômicos do país, principalmente com relação à inflação e ao crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), como precondição para a retomada das negociações.

A única providência do governo para conter as pressões internas é o congelamento de preços de produtos, cujo resultado previsível é a escassez de oferta nos supermercados. Mesmo com a recente mudança nos altos escalões do governo, não há intenção de adotar outra política. Como disse no fim de novembro o chefe de Gabinete da Presidência, Jorge Capitanich, a saída do poderoso Guillermo Moreno da Secretaria de Comércio Interior não significa nenhuma alteração fundamental. O controle de preços sobre 500 produtos básicos será mantido indefinidamente, bem assim como as barreiras às importações, que acabam tornando os importados mais caros para o consumidor. Como se viu nas imagens divulgadas, os saques se concentraram em bens duráveis de consumo, como móveis, televisores e aparelhos de utilidade doméstica, de modo geral.

A temporada de protestos na Argentina pode estar apenas começando. Outra data marcante da história recente do país se aproxima: no próximo dia 20 completam-se 12 anos desde a renúncia do presidente Fernando de la Rúa, defenestrado por um movimento de massa. Por prudência, os supermercados da Grande Buenos Aires já anunciaram que vão fechar as portas nesse dia.

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