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A árvore boa (2)

Para muitos brasileiros, o País está à margem do seu Rubicão, esperando a sorte ser lançada

*Rômulo Bini Pereira

19 Abril 2017 | 03h01

Como já se aproximava o cinquentenário da Revolução de 1964, este jornal publicou em 19/2/2014 o artigo A árvore boa, em que foram apresentadas as razões por que seus defensores mantinham a fé nos princípios éticos e morais que conduziram aquele movimento histórico e democrático. Desde então, fatos de grande repercussão política ocorreram. Percebe-se, todavia, que o País ainda continua numa fase conturbada e que seu futuro é incerto.

Diuturnamente surgem acontecimentos que revelam que a gestão incompetente dos governos petistas implantou uma corrupção sistêmica, o que levou a Nação à bancarrota e ao descrédito internacional. É por isso que o título deste artigo evoca novamente o citado movimento, que acabou de completar 53 anos.

Para surpresa de muitos que acompanham o atual momento político, o tema Revolução de 64 tem tido expressiva exposição nas mídias, cujas razões são desconhecidas. Provavelmente serão resultantes do crescimento dos partidos de direita em todo o mundo e até da posição significativa nas pesquisas eleitorais de um candidato à Presidência dito de direita. As esquerdas brasileiras consideram de direita ou fascista quem se posiciona contra o já desgastado “politicamente correto”, ou contra suas obsoletas e ineficazes “verdades ideológicas”. Os artigos, as análises, os debates, as entrevistas, os filmes e as séries televisivas apresentam sempre um roteiro repetitivo, com os mesmos depoimentos, fotos, cenas, incluindo as que transmitem uma ação ou uma imagem de autoritarismo e de agressividade. Uma abordagem parcial e de meias-verdades, características do gramscismo.

Raramente se notam referências ao contexto histórico daquela época, à vigência da guerra fria, à atuação mundial do Movimento Comunista Internacional (MCI) e, principalmente, à influência da ditadura cubana nos países sul-americanos, que resultou na eclosão de movimentos armados em quase todo o continente, com milhares de mortos. As Farc, apoiadas diretamente por Cuba, são o maior exemplo dessa influência. Felizmente, no Brasil, graças ao repúdio da maioria do povo e à ação de suas forças constitucionais – Forças Armadas e Polícias Militares –, as guerrilhas urbana e rural não atingiram seus objetivos espúrios e totalitários.

Os lamentáveis fatos recentes no Estado do Espírito Santo puseram essas duas instituições em evidência. Representantes de organizações de direitos humanos afirmam que as Polícias Militares são “uma herança do regime militar” e “veem a sociedade como inimiga”. Uma declaração inconsequente e estereotipada, já antiga, criada pela esquerda revanchista e seu patrulhamento ideológico.

Nos dias atuais o mundo sofre um latente aumento de violência e no Brasil a escalada é maior, com índices urbanos impressionantes. No Estado do Rio de Janeiro a violência é de uma guerra civil, com inúmeras mortes e zonas “liberadas” de domínio do crime organizado. Nesse ambiente é que atuam as forças de segurança (artigo 144 da Constituição), afetadas ainda pela impunidade e pela permissividade social presentes em nossa sociedade. Seria bom se os citados representantes conhecessem os cursos de formação e especialização de oficiais e praças das PMs, cujos programas de instrução adotam o princípio básico de viver a sociedade, e não combatê-la. Apesar dos erros de alguns de seus integrantes, não se deve imputar às instituições policiais a responsabilidade pela imensa desordem social que reina no País. Por fim, deveriam conhecer, deixando seus gabinetes, a ação tensa e perigosa do dia a dia do policial.

Em 49 a.C., Júlio César, general romano e estadista com grande prestígio popular, ao atravessar o Rio Rubicão, contrariou o Senado romano e provocou uma crise política cuja consequência foi a eclosão de uma guerra civil na República Romana. Essa histórica travessia passou a significar, no decorrer dos séculos, situações que expressem perigo e decisões que não têm volta. Independentemente do que houve em Roma, para muitos brasileiros o Brasil está às margens do seu Rubicão, esperando “a sorte ser lançada”.

Numa das margens estão homens e mulheres que anseiam por um País digno e justo. Participam de manifestações populares, nas quais demonstram a sua repulsa à banalidade do mal e combatem a erosão de valores éticos e morais de nossa sociedade. Defendem vigorosamente o juiz Sergio Moro e sua equipe. Pelo que representam, assemelham-se aos que cultuam e cultivam os valores da “árvore boa”.

Na outra margem encontramos novamente o abominável “nóis”, os que puseram a Nação no fundo do poço e no mar de lama em que vive. Esqueceram-se completamente do passado. São os que se posicionam contra qualquer medida, reformista ou não, adotada pelo novo governo. São os que, via medidas sub-reptícias, almejam a anistia de suas fraudulentas operações. São aqueles juízes que proclamam sentenças frontalmente contra a opinião pública e beneficiam criminosos de todos os naipes e, infelizmente, alguns juízes das altas Cortes que, julgando estar investidos de poderes absolutos, se conduzem com a arrogância de suposta infalibilidade. São os que pregam o entendimento de políticos da situação e da oposição, um verdadeiro acordão que não visa o País, mas seus interesses individuais e partidários. E ainda há os que trafegam em ambientes onde predominam a falsidade sem limites, a podridão e a falta de caráter.

Neste confronto de margens não se sabe quem será o vencedor, pois o futuro do Brasil ainda é incerto. Que seja a primeira margem, cujos princípios se identificam plenamente com os adotados pela Revolução de 64. Será um revigoramento de suas raízes, de seu tronco e de seus frutos. Por isso é bom repetir o fecho do artigo de 2014: “A Revolução de 1964 será sempre uma ‘árvore boa’!”.

*General de exército, foi chefe do estado-maior do Ministério da Defesa

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