A audácia crescente do PCC

O que mais chama a atenção nesses roubos, além da quantia total conseguida, de R$ 138 milhões, é o nível de organização na sua execução

O Estado de S.Paulo

15 Julho 2016 | 03h00

Que o Primeiro Comando da Capital (PCC) nunca teve sua força realmente abalada, que continua a diversificar suas atividades criminosas e a aumentar seu poder dentro do sistema penitenciário, onde nasceu, e fora dele é coisa bem sabida. O que mais impressiona nele hoje, além dessa posição de destaque no crime organizado, é a audácia crescente de suas ações, como provam os recentes ataques contra empresas transportadoras de valores em cidades do interior e do litoral de São Paulo.

Segundo o Departamento de Investigações Criminais (Deic) da Polícia Civil, tudo indica que eles foram planejados pelo PCC e executados por sua ordem: tanto o de março, contra a sede da Protege, em Campinas, como o de abril contra a Prosegur, em Santos, e o da semana passada, contra essa mesma empresa em Ribeirão Preto. Esse último, em especial, chocou a opinião pública pela facilidade com que os bandidos conseguiram chegar ao local e também pelo aparato utilizado: vários carros, caminhões, uma retroescavadeira, armamento exclusivo das Forças Armadas e explosivos.

Como resumiu bem um comerciante, que como outros vizinhos da Prosegur em Ribeirão conseguiu filmar o roubo: “Foi uma coisa assustadora. A gente vê isso na televisão e não faz ideia que de perto é muito pior”. Não há exagero porque, além das explosões provocadas para abrir caminho em direção ao cofre forte da empresa, se estima que foram disparados mais de mil tiros de fuzis pelos bandidos para impedir a aproximação da polícia. Além da soma roubada – R$ 65 milhões –, o PCC ainda conseguiu o efeito de chocar e amedrontar a população com sua demonstração cinematográfica de força.

O que mais chama a atenção nesses roubos, além da quantia total conseguida, de R$ 138 milhões, é o nível de organização na sua execução. Segundo o delegado Fabiano Barbeiro, existem dentro do PCC grupos especializados na prática de cada aspecto específico dos crimes. Eles são reunidos e sua ação planejada de acordo com as características das ações, dos locais em que devem ocorrer e da possível resistência a ser enfrentada. E cada vez mais lançam mão também de novas tecnologias como a utilização de aplicativos (WhatsApp é um deles).

Essa capacidade de organizar e planejar não está presente só nas ações no terreno, mas igualmente – o que é mais importante – na diversificação dos setores em que atua o PCC, na sua expansão para outros Estados (está presente na maioria deles) e o exterior e na escolha das alianças com outros grupos criminosos.

Um exemplo é a sua entrada no tráfico de drogas, que não é de hoje, e que já se transformou numa de suas maiores fontes de renda. Outro é a sua relação com as vans que fazem parte do serviço de ônibus da capital, usada para lavar o dinheiro das drogas, que foi objeto de denúncia feita à Justiça pelo Ministério Público Estadual em 2014. Pouco depois, o Ministério Público fez o mesmo com relação às ligações do PCC com um dos ramos da máfia italiana, a N’Dragheta, neste caso para intermediar o envio de cocaína da Bolívia para a Europa.

O combate ao PCC tem ficado longe do que deveria ser, e é por isso que ele atingiu o porte e a eficiência que ficaram mais uma vez demonstrados nesses três roubos. O Deic comemorou a autorização que recebeu do Comando Militar do Sudeste para usar as armas – fuzis e metralhadoras – apreendidas com os criminosos em São Paulo. Esse é mesmo um fato positivo, mas é preciso muito mais do que isso para enfrentar o PCC em sua principal base, que continua sendo São Paulo.

Para tal é necessário investir mais em investigação – que afinal é a principal função da Polícia Civil – e informações, além de estabelecer cooperação mais estreita com as polícias de outros Estados e com a Polícia Federal, tendo em vista as atividades do PCC no resto do País e no exterior. É a ausência de medidas como essas que explica por que ele chegou onde chegou.

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