A baderna da Apeoesp

As cenas de violência protagonizadas quinta-feira por professores em greve, em frente à sede da Secretaria Estadual da Educação, são muito mais do que um caso de polícia, embora por si só isso já seja suficientemente grave, tendo em vista a importância social da categoria envolvida. Foi um triste atestado do aviltamento profissional de uma parte do professorado pela militância política, do qual as principais vítimas são evidentemente as crianças e os jovens de cuja formação esses professores devem cuidar. Pior ainda é que esse não é um fato isolado, mas se insere numa longa série de episódios de truculência, sendo notório aquele em que o então governador Mário Covas foi ferido, em 2000, naquele mesmo local.

O Estado de S.Paulo

25 Abril 2015 | 02h06

Quem assistiu pela televisão à tentativa de invasão daquele prédio, durante ato promovido pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), teve a estranha sensação de presenciar ataque à maneira antiga contra uma fortaleza, uma dessas cenas comuns em filme ambientado na Idade Média, na qual são utilizados aríetes para pôr abaixo muralhas e portões. A lembrança de tempos, usos e costumes medievais cai bem nesse episódio, principalmente por tudo o que eles evocam de atraso, obscurantismo e violência.

Um grupo de cerca de 60 baderneiros, a maior parte encapuzados como convém a quem se coloca fora da lei, conseguiu ultrapassar um dos portões de ferro da Secretaria, segundo a Polícia Militar (PM), e quebrou uma porta. Mas foi contido pela PM, que usou gás lacrimogêneo e spray de pimenta, antes que conseguisse arrebentar o portão seguinte com os golpes de uma grande barra de ferro. Com tal disposição e tais armas é fácil de imaginar o estrago que esses professores, que mais pareciam black blocs, teriam feito no prédio e o risco a que teriam exposto a integridade física dos assustados funcionários que ali se encontravam.

Nada se salva, tanto no comportamento desse grupo como no da Apeoesp, que comanda uma greve iniciada há mais de um mês, embora com adesão menor do que a propalada. A selvageria da tropa de choque da baderna contrasta com o comportamento civilizado do secretario da Educação, Herman Voorwald, que, momentos antes, havia deixado a porta aberta ao prosseguimento das negociações com a cúpula da Apeoesp. Não houve acordo, embora o governo tivesse se comprometido a manter a política salarial dos últimos quatro anos, que trouxe inegáveis melhorias aos salários dos professores, cujo piso é hoje 26% superior ao nacional.

A atitude da Apeoesp também se caracteriza pela opção pelo confronto e pelas reivindicações irrealistas, formuladas com a clara intenção de levar a um impasse. O vice-presidente da entidade, Fábio Moraes, por exemplo, em vez de condenar a violenta tentativa de invasão do prédio, disse "entender" a motivação dos que dela participaram. Na prática, isso significa acobertar a baderna.

A reivindicação de 75,33% de reajuste salarial não é coisa para se levar a sério, por maior que seja a boa vontade para melhorar a remuneração dos professores. Salta aos olhos que é uma reivindicação impossível de atender. Além do mais, o governo alega que já deu aumento cumulativo de 45% nos últimos quatro anos, ou seja, caminha-se na direção de salários dignos e uma boa parte do percurso já foi feita. E o governo acaba de dar, a todos os professores da rede pública, o maior bônus por desempenho da história, no valor total de R$ 1 bilhão.

Assim, a insistência da Apeoesp em índices irrealistas e na tolerância - quando não o incentivo - com a violência é um sinal claro de que o sindicato não quer acordo, mas confronto permanente, por razões políticas. Para isso, vale tudo. Ela chegou a ponto de fazer campanha pelos meios de comunicação pedindo aos pais para não levar seus filhos às escolas durante a greve, o que a Justiça em boa hora proibiu.

É altamente preocupante pensar que o futuro dos alunos da rede pública está entregue a pessoas - ressalvadas as exceções - que cultivam a intolerância e cultuam a baderna.

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