A baixaria israelense

O mínimo que Israel deve ao Brasil é um pedido formal de desculpas por ter o porta-voz da sua chancelaria, Yigal Palmor, cometido a grosseria de chamar o País de "anão diplomático" e "parceiro diplomático irrelevante" - além de fazer uma alusão que imaginava ferina à goleada de 7 a 1 sofrida pela seleção brasileira na Copa. A baixaria se seguiu à decisão de Brasília de chamar "para consultas" o embaixador em Tel-Aviv, Henrique Pinto, para marcar seu protesto pelos indiscriminados ataques israelenses à Faixa de Gaza, que já deixaram cerca de 800 mortos e mais de 4.700 feridos, a grande maioria civis. Nem uma escola da ONU que servia de abrigo escapou.

O Estado de S.Paulo

26 Julho 2014 | 02h04

Além da convocação do embaixador, um gesto de forte repercussão em relações bilaterais, superado apenas pela retirada do representante, o Itamaraty externou ao chefe da representação israelense, Rafael Eldad, sua condenação à "desproporção" dos revides ao disparo de mísseis do movimento radical Hamas, que controla o território. Os lançamentos já passam de 2 mil. Um deles caiu a pouca distância do aeroporto de Tel-Aviv, levando companhias estrangeiras a suspender os voos para o país. Além dos intensos bombardeios a Gaza, as forças israelenses invadiram a área, alegadamente para localizar e destruir os túneis utilizados pelo Hamas para transportar munições. Mais de 30 soldados foram mortos. A macabra contabilidade, porém, é de que, para cada vida israelense perdida, os palestinos perdem 25.

Na sua primeira manifestação sobre o conflito, semana passada, uma nota convencional do governo brasileiro instou as partes a cessar as hostilidades e buscar o caminho do diálogo. No mesmo dia, a presidente Dilma Rousseff considerou "lamentável" o acirramento da violência, sem distinguir seus causadores. Já na quarta-feira, além de chamar o embaixador do Brasil e reclamar com o seu colega israelense, o Planalto emitiu outra nota - dessa vez de dura condenação a Israel, sem citar as ações do Hamas. Pouco antes, a delegação brasileira no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas votou a favor da abertura de uma investigação sobre eventuais "crimes de guerra" e violação do direito internacional durante a ofensiva israelense. A resolução foi aprovada. Por fim, o desastrado assessor de Relações Internacionais do Planalto, Marco Aurélio Garcia, equiparou os "massacres" israelenses a um "genocídio".

Pode-se especular até o fim das matanças no Oriente Médio o que terá levado um governo praticamente quedo e mudo nos últimos quatro anos diante de crises internacionais a se manifestar de forma tão estridente no caso de Gaza. A rigor, pouco importa: a guinada brasileira, que surpreendeu os próprios protagonistas de mais este ciclo de agressões e revides - cuja origem, descontados os incidentes que os precederam, parece ser a reconciliação da Autoridade Palestina do moderado Mahmoud Abbas com o Hamas do intratável Kaled Meshal -, mereceria de Israel um silêncio glacial ou uma resposta diplomática, nunca um destampatório que deixa à mostra sua prepotência. Deu a impressão de que o caudilho Hugo Chávez reencarnou em Jerusalém.

A política externa brasileira raramente é criticada - muito menos nesses termos - por autoridades estrangeiras, ainda quando a considerem um despropósito, como a tentativa do então presidente Lula de se intrometer na pendenga entre Washington e Teerã sobre o programa nuclear iraniano. A última vez que um país com o qual se mantinha relações destratou o Brasil foi em 1947, no começo da guerra fria, quando o jornal oficial do regime soviético, o Pravda, afirmou que os generais brasileiros, entre eles o à época presidente Eurico Gaspar Dutra, conquistaram as suas medalhas não nos campos de batalha, mas nos cafezais. A reação imediata do governo foi romper todos os vínculos com a URSS.

É inconcebível, obviamente, repetir a dose. Basta a elegância do chanceler Luiz Alberto Figueiredo ao lembrar que o "anão" é um dos 11 países que se relacionam com todos os membros da ONU - e "não usa termos que desqualifiquem governos de países amigos".

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