A bandeira americana em Cuba

Os Estados Unidos e Cuba reabrirão embaixadas nos dois países no próximo dia 20. O gesto formaliza a retomada das relações, rompidas desde 1961, após a revolução que levou Fidel Castro ao poder, e consolida a estratégia de Obama de apostar na diplomacia como forma de defender os interesses americanos ao lidar com regimes considerados hostis.

O Estado de S. Paulo

02 Julho 2015 | 03h00

O isolamento de Cuba, por meio de um feroz bloqueio econômico e de agressividade diplomática, não funcionou, pois seu objetivo declarado, o de minar a ditadura cubana e propiciar o estabelecimento de um regime democrático em seu lugar, não foi atingido. Mesmo o afastamento de um combalido Fidel Castro do poder não abalou o regime.

Obama, no entanto, acredita que seja possível relacionar-se com Cuba sem que a ilha se transforme em uma democracia, como queriam os idealizadores do bloqueio. O objetivo americano segue sendo pressionar a ditadura cubana a respeitar os direitos humanos e, eventualmente, promover uma abertura política que resulte em uma democracia plena, mas esta deixou de ser a precondição para a normalização das relações.

Ainda assim, alguns dos pontos do acordo para o restabelecimento dos laços com Cuba pressupõem que a ditadura suavize certas interdições. Um exemplo é a demanda de Washington para que seus diplomatas possam circular livremente e visitar quem bem entenderem, inclusive opositores do regime.

Essa certamente não foi a questão mais espinhosa dos seis meses de duras negociações que precederam o anúncio oficial do reatamento, mediadas pelo Vaticano e pelo Canadá. Há pendências bem mais complexas, especialmente o embargo americano a Cuba. Estabelecido em fevereiro de 1962, o bloqueio econômico serviu como símbolo da política de poder americana e como desculpa de Fidel para não resolver os problemas econômicos inerentes ao regime comunista.

Há algum tempo o bloqueio deixou de ser realmente efetivo, pois boa parte do mundo faz negócios com Cuba, e mesmo algumas empresas americanas vêm encontrando brechas para empreender na ilha. Outras anunciaram claramente que pretendem vender seus produtos aos cubanos antes mesmo do fim do embargo. Ainda assim, a oposição republicana já deixou claro que o embargo – cuja suspensão depende de aprovação do Congresso – será sua trincheira para criar dificuldades à reaproximação com Cuba. Outra estratégia será atrasar ao máximo a aprovação do diplomata que Barack Obama indicará para embaixador em Havana.

Em mensagem ao secretário de Estado John Kerry, o senador republicano Marco Rubio, de origem cubana, informou que haverá problemas para confirmar a nomeação do embaixador até que fiquem claros os compromissos de Cuba com o respeito aos direitos humanos. Além disso, Rubio disse não ter visto progresso na questão das indenizações devidas aos americanos expropriados na época da revolução e também quanto à situação dos fugitivos da Justiça americana que encontraram abrigo em Cuba.

Essas questões certamente criarão dificuldades para Obama, mas o presidente americano já demonstrou que tais objeções não serão suficientes para interromper a marcha desses importantes acontecimentos. “Cubanos e americanos estão andando para a frente, acho que é tempo de o Congresso fazer o mesmo”, disse Obama. “Não podemos ser prisioneiros do passado. Quando algo não está funcionando, podemos e devemos mudar”, afirmou o presidente, referindo-se ao embargo.

A reabertura da embaixada americana em Havana terá a presença de Kerry – que será o primeiro secretário de Estado americano a visitar Cuba desde 1945. Segundo Obama, ele será responsável por “orgulhosamente fazer a bandeira americana voltar a tremular em Havana”.

Mas a oposição republicana prometeu que não vai liberar os US$ 6,6 milhões necessários para reformar o prédio que abrigará a embaixada. Depois de tantos anos sem muita utilidade, o edifício – o mesmo onde hoje se encontra o escritório de representação americana e que serviu como Embaixada dos EUA até 1961 – está em péssimo estado de conservação.

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