A batalha de São Paulo

"Non du-cor duco" (não sou conduzido, conduzo). O lema do brasão da cidade de São Paulo, criado em 1916 pelo prefeito Washington Luiz, que veio a assumir depois a Presidência da República, expressa de modo adequado a importância do Estado mais poderoso da Federação nas eleições deste ano. Ancorando a hipótese, uma lista de superlativos: cerca de 32 milhões de eleitores; os maiores conglomerados de categorias setoriais, abarcando trabalhadores e profissionais liberais; centrais sindicais e entidades de áreas produtivas; movimentos organizados, que promovem intensa mobilização e abrem a locução das ruas; núcleos em defesa de direitos humanos, minorias e igualdade de gêneros. E para dar vazão às demandas dessa gigantesca teia de representação São Paulo dispõe de vigorosa tuba de ressonância cujo eco se faz ouvir em todo o território nacional.

GAUDÊNCIO TORQUATO, O Estado de S.Paulo

20 Julho 2014 | 02h04

Mas a posição de liderança no processo eleitoral não pode ser entendida apenas em decorrência do poderio econômico do Estado, que tem um produto interno bruto (PIB) de R$ 1,5 trilhão, representando 31,2% do PIB nacional, de R$ 4,8 trilhões. A força de São Paulo também vai além da liderança no ranking eleitoral, com seus 23% do eleitorado brasileiro. Outros parâmetros entram na abordagem. O Estado exibe o maior grupamento de eleitores racionais, fator decisivo para avanços na esfera política. A racionalidade transparece no voto ponderado, na comparação entre perfis, na cobrança aos governantes, nas mobilizações de setores e nos movimentos reivindicatórios, a denotar a emergência de uma força centrípeta que se expande. Tal percepção provém da organicidade social.

Ao longo dos últimos anos a comunidade criou múltiplas ilhas no arquipélago do poder, tornando-as canais para fazer chegar demandas aos governantes e representantes, praticando, assim, exercícios de democracia direta. O epicentro dessa movimentação é a capital, com quase 9 milhões de eleitores - eleitorado maior que o de 23 Estados (só perde para os Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro). A metrópole impregna-se de vibração, com suas regiões exibindo identidades peculiares (polos habitacionais, industriais e de serviços) e incorporando os adereços estéticos dos espaços chiques.

Costuma-se dizer que o pleito será decidido pela passagem do transatlântico eleitoral pelo triângulo das bermudas, constituído por SP, MG e RJ, os três maiores colégios. Ou ainda que é Minas que decide, sob o argumento de ser esse Estado uma encruzilhada que representa a síntese do País. Ora, quando há na disputa dois candidatos mineiros, Aécio Neves e Dilma Rousseff, a tese parece fraquejar. O fato é que São Paulo tem os maiores exércitos da guerra eleitoral. As ondas de seu mar costumam empurrar para longe os eventos que geram protestos, denúncias, discursos positivos/negativos, avaliações de candidatos, percepções sobre o cotidiano. Na simbologia da pedra jogada no meio da lagoa (associada à classe média), o Estado é a força que faz as marolas chegarem às margens.

As alavancas de empuxo são constituídas pelas classes médias: a emergente classe C, com suas demandas em torno do "quero mais e melhor"; a tradicional classe B, em que os índices de racionalidade são altos; e a classe A, de renda elevada. (A propósito, as classes médias já somam mais de 50% da população brasileira, cerca de 105 milhões de pessoas.) Os discursos mais críticos e salientes provêm desses aglomerados, que se unem em cobranças e na disposição de votar contra o status quo. Tal posição pode resultar nos chamados "não votos", contabilizados hoje pelas pesquisas em cerca de 30%, soma de abstenção, votos em branco e nulos. Mas há uma forte coluna que jogará seus votos no continuísmo, particularmente os núcleos ancorados na administração pública. Por isso mesmo São Paulo viverá um disputado "cabo de guerra" entre as classes médias e os entrincheirados nos bastiões trabalhistas atrelados ao Estado, que tentarão segurar suas mãos nas alças do poder.

A batalha eleitoral aponta ainda para dois territórios diferenciados: o da metrópole, onde o nível de insatisfação e angústia atinge índices elevados em decorrência dos problemas rotineiros, como congestionamentos, violência, serviços públicos precários; e o do interior, habitado por populações menos estressadas, orgânicas e integradas aos valores de uma rotina mais harmônica. Nunca foi tão forte o clamor pela micropolítica, por programas e projetos destinados às melhorias da estrutura urbana. Atrás dessas bandeiras desfilam grupos organizados, categorias profissionais sob o comando de novas lideranças e movimentos que pregam ruptura. Em suma, o nível de conscientização, gerando voto autônomo, é mais elevado.

Isto posto, desponta a questão: a disputa paulista terá influência nas lutas eleitorais de outras regiões? Primeiro, urge dizer que tal influência se dá no plano de formação da opinião pública. O fragor da batalha não começou agora com a abertura oficial da campanha de rua. Poucos se dão conta de que o rebuliço que toma conta do País desde junho do ano passado começou em São Paulo. E as ondas revoltas continuarão. Os tiroteios mais destrutivos saem da artilharia verbal de comandantes e líderes da região. Lula e Fernando Henrique Cardoso que o digam. Basta ver as sabatinas a que se submeteram, semana passada em São Paulo, dois candidatos da oposição, um atirando no outro e ambos atirando na candidata governista.

O País acompanha o que se passa nessa praça de guerra. Não dá para acreditar que o velho axioma "entre mortos e feridos todos se salvaram" resista ao pleito de outubro. A batalha de São Paulo será decisiva.

P.S.: Não mais lerei aos domingos, neste jornal, as peripécias de Zecamunista e seus amigos, personagens inesquecíveis do grande João Ubaldo Ribeiro. Um adeus saudoso.

JORNALISTA, PROFESSOR

TITULAR DA USP, É CONSULTOR

POLÍTICO E DE COMUNICAÇÃO TWITTER@GAUDTORQUATO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.