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A boa notícia de Sarney

O Estado de S.Paulo

28 Junho 2014 | 02h 05

Dia desses correu nos meios políticos uma boa notícia que rapidamente se espalhou pelo País: José Sarney desistiu de se candidatar mais uma vez ao Senado. Não faltou quem se apressasse a anunciar que o mais antigo cacique do País estaria se aposentando da política. Ledo engano. Aos 84 anos, com quase 60 na vida pública, o maranhense José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, alcunhado José Sarney, soube aprimorar o modelo de dominação do coronelismo nordestino, construiu um império sustentado na conjugação de política com bons negócios e se tornou um dos homens mais poderosos do País. Uma conquista que se deve principalmente ao insaciável apetite por servir-se do poder, mantendo-se para tanto quase que permanentemente aliado aos governantes de turno. E vocação assim é tão longa quanto a vida.

A biografia de Sarney, escoimada da mistificação hagiológica das publicações por ele patrocinadas, revela um político extremamente habilidoso, solerte, capaz de transitar com desembaraço entre todos os antagonismos, sempre pragmaticamente focado em somar conquistas a seu patrimônio pessoal e político. Desse ponto de vista, a carreira de José Sarney é um magnífico exemplo de coerência: nunca embarcou - pelo menos por mais tempo do que o estritamente necessário - em canoa furada.

Mas a trajetória política do 31.º presidente da República é marcada também por dois outros atributos decisivos: a capacidade de adornar a própria imagem com tinturas de ideias progressistas e muita sorte.

Sarney se lançou na política maranhense fazendo oposição ao senador Vitorino Freire, o "coronel" cria da ditadura Vargas, chefe político no Estado por mais de 30 anos. O futuro presidente da República disputou sua primeira eleição a deputado federal em 1954, conquistando a terceira suplência, mas assumindo provisoriamente uma cadeira na Câmara dos Deputados no ano seguinte. Pouco depois trocou o partido pelo qual se elegera, o então PSD, pela UDN, legenda na qual permaneceu até o governo militar, que extinguiu os partidos políticos e criou a Arena e o MDB.

Na UDN, Sarney identificou-se com a ala mais progressista, cujas preocupações sociais passaram a pautar sua ação política no Maranhão, no combate ao vitorinismo. Em 1965, aos 35 anos, elegeu-se governador. E começou a revelar sua verdadeira face de novo coronel do pedaço. Apesar de algumas realizações pontuais comemoradas por uma população absolutamente carente de serviços públicos, a substituição do vitorinismo pelo domínio da família Sarney resultou, depois de quase meio século, na manutenção do Maranhão como um dos Estados mais atrasados e carentes. Hoje, sob o governo de Roseana Sarney, exibe o segundo pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) regional.

Enquanto o Maranhão se contorcia em atraso e pobreza, a carreira de Sarney só fez progredir. Em 1985, dando-se conta dos estertores da ditadura militar que apoiara convictamente como presidente do então partido governista, a Arena, bandeou-se para a oposição. Na eleição indireta de 1985 tornou-se vice-presidente da República, assumiu provisoriamente a chefia do governo quando o titular eleito, Tancredo Neves, adoeceu antes da posse e tornou-se chefe de Estado quando, semanas depois, Tancredo morreu sem ter envergado a faixa presidencial.

Os cinco anos do governo Sarney foram marcados pelo agravamento da situação econômica e pelo grande aumento das denúncias de corrupção. Isso criou condições para que um aventureiro de Alagoas se tornasse seu sucessor, em 1989, proclamando-se "caçador de marajás". Em 1990, elegeu-se novamente senador, pelo então recém-criado Estado do Amapá, e passou a operar politicamente a partir da Câmara Alta, que presidiu por três vezes.

Quando Lula chegou à Presidência, em 2003, Sarney o esperava de braços abertos. Imediatamente se identificaram no apego ao poder e cimentaram uma sólida aliança. A decisão de se poupar do repúdio do eleitorado amapaense não vai mudar isso. Mesmo assim, é uma excelente notícia para o Brasil.

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