A bola em outros campos

Em sua última crônica antes de o Brasil estrear na Copa do Mundo, em 1958, Nelson Rodrigues, indignando-se contra o pessimismo das ruas, das esquinas, dos botecos, traduzido na expressão "a seleção nem vai se classificar", cunhou um chiste famoso, o "complexo de vira-latas", para exprimir a inferioridade em que o brasileiro se colocava diante do mundo. Arrematava a explicação: "O brasileiro precisa se convencer que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender, lá na Suécia". O dito do nosso maior dramaturgo há tempos abandonou os vãos da nossa alma futebolística para fazer eco em outras arquibancadas, principalmente nos ambientes palacianos dos governantes, onde se entoam ladainhas de autoglorificação cujo bordão é o de que os brasileiros precisam se orgulhar dos feitos dos donos do poder e das grandezas do Brasil potência.

Gaudêncio Torquato, O Estado de S.Paulo

13 Julho 2014 | 02h02

Faz tempo, sim, que o País deixou de ser a pátria do futebol das fintas, das firulas e dos dribles fantásticos, mito alimentado pela inventividade de um ou outro craque e exageradamente reforçado pela tuba midiática, que tenta vender a parte pelo todo e cujas negociações com cartolas e patrocinadores jogam a bola no campo dos cifrões. A fantasia, a improvisação e a invenção, matérias-primas que por anos a fio sedimentaram as bases da "pátria em chuteiras" (outra expressão de Nelson) e jorraram com abundância nos dutos da catarse social, hoje não passam de arremedos infrutíferos, quando não de performances capengas, como a que se viu contra a Alemanha na semana passada, o maior desastre na história do futebol brasileiro.

E pouco acresce ao debate a referência ao apagão, como se uma paralisia de cinco, seis ou dez minutos não pudesse ser previamente diagnosticada e convenientemente tratada pelo aparato técnico, científico, psicológico à disposição do corpo futebolístico. Pouco também adiantará apontar culpados, ensaiar jogadas recíprocas de acusações, tatear nas margens das questões que o futebol suscita, a começar do reconhecimento de que suas técnicas evoluíram, dando prioridade aos conceitos da força do conjunto, da celeridade, do preparo psicológico, de táticas e estratégias específicas para cada adversário. Para começo de conversa, as arenas futebolísticas multiplicaram-se em todos os continentes, conferindo ao esporte uma dimensão planetária e, consequentemente, estreitando as distâncias entre maiores e menores, melhores e piores, animando os novatos a enfrentar nos estádios, de igual para igual, os mais experientes.

Já se prega a urgência de um "choque de gestão" no futebol brasileiro, o que implicaria a oxigenação nas cúpulas da cartolagem, a busca de perfis adequados aos contextos de competitividade e o fim do ciclo até então vivido pela seleção, com foco em grupinhos, prepotência, arrogância. Pode ser um caminho.

Mas não se espere que mexer uma pedra do tabuleiro seja suficiente para conduzir o nosso futebol aos primeiros lugares do ranking mundial. Ele é parte de um todo, não um fio separado do rolo. O ethos nacional é uma mescla de hábitos, costumes, atitudes, visões, história e tradição. Os nossos trópicos certamente garantem um pedaço no bolo comportamental, seja pela variedade geográfica e pelas belezas naturais - que encantam os milhares de turistas que vieram para a Copa -, seja pelos valores inerentes ao povo: a generosidade, a alegria compartilhada, o calor, a receptividade.

Essa radiografia valorativa, porém, não comporta apenas a planilha de coisas bonitas, lúdicas e festivas, conforme se pode depreender de uma olhada na estética das ruas durante a Copa. Abriga também aspectos nem sempre alinhavados pelas lupas sociológicas, como o desleixo, a incúria, a individualidade, a desorganização, a bagunça, enfim, o cenário que tende a propiciar atos de selvageria.

Neste ponto convém puxar o papel do poder público para a harmonização social. Trata-se de dever inalienável da administração do Estado cuidar para suprir as demandas dos contingentes socais na esfera do cotidiano. Daí a importância de um "choque geral de gestão". Esse é o ponto fulcral desta abordagem. A escorchante e vergonhosa derrota do Brasil para a Alemanha pode abrir o encontro do País com suas realidades. Passar uma camada de tinta sobre o nosso futebol, deixando o reboco mofado sobre as paredes da saúde, da educação, da segurança pública, dos transportes urbanos, enfim, continuar a encobrir a paisagem torta das ruas é perpetuar o estado de carências. O mergulho profundo do País no oceano de suas grandes causas pode ser a luz de um novo horizonte. Vai significar gestão da responsabilidade, tempo dos compromissos com metas e resultados, exigência de qualidade, reparo e reengenharia nas estruturas existentes, busca da simplicidade e da prevalência de questões essenciais com plena transparência.

A alegria do povo não pode ser entendida como um presente da seleção brasileira com vitórias. Mas esse é o entendimento dos nossos jogadores. Ora, eles são pagos para ter um bom desempenho. A alegria das massas é amálgama de sentimentos que junta os condimentos que entram no cardápio social, todos eles fundamentais para se alcançar o bem-estar. Ficou para trás a era panis et circensis, quando os imperadores romanos distribuíam pão ao povo nas arquibancadas do Coliseu romano por ocasião das lutas dos gladiadores.

O futebol é apenas um eixo da roda da diversão nacional. A respeito dele, sem querer esmaecer o conceito de negócio que o transforma em atividade das mais lucrativas do mundo do espetáculo, urge que promova maior correspondência entre os salários de jogadores e suas atuações. A impressão é que os estratosféricos recursos por eles auferidos estão oceanicamente distantes do que se vê nas arenas. Algo não combina. O clamor das galeras expressa o desempenho da equipe: falta raça, sobra ração ($$$$). E muita exibição. Estrelas do Olimpo, os nossos atletas até parecem sofrer do "complexo de pavão".

* Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e consultor de política e de comunicação 

Twitter @gaudtorquato

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