A caça ao voto religioso

A primeira pesquisa Ibope/Estado/TV Globo depois de 3 de outubro - a primeira também depois do debate inaugural entre Dilma Rousseff e José Serra nesta fase derradeira da disputa eleitoral - indica que a candidata petista não reverteu a tendência de queda verificada na reta final do primeiro turno, que a impediu de se eleger numa única rodada de votação. Na melhor das hipóteses, do ângulo petista, a situação terá se estabilizado.

, O Estado de S.Paulo

15 Outubro 2010 | 00h00

Segundo as novas sondagens, tanto pelo critério de votos totais como pelo de votos válidos (excluídos brancos, nulos e indecisos), Dilma tem apenas entre 6 e 8 pontos de vantagem sobre o tucano. Nas urnas, a diferença foi cerca do dobro: 14 pontos. A mudança de atitude da candidata no debate da TV Bandeirantes - mais "assertiva", como ela diz -, mantida no horário eleitoral da TV, ainda não foi assimilada pelos eleitores.

O mais revelador do levantamento do Ibope é a confirmação de que o voto religioso foi o que levou a sucessão ao tira-teima. Se não tivesse sido, aliás, seria inexplicável o peso que a propaganda dos antagonistas passou a dar ao tema do aborto, cada um se esfalfando mais do que o outro para se mostrar mais pró-vida ou defensor dos valores familiares e entronizar a religião no topo dos atributos da brasilidade.

A evolução das preferências eleitorais dos entrevistados pelo Ibope guarda relação direta com suas crenças religiosas declaradas (católicos, evangélicos e outros). Junto aos primeiros, Dilma perdeu preciosos 5 pontos entre a última semana de setembro e a véspera do pleito. Desde então, manteve o que tinha. Serra, de seu lado, cresceu e continua a crescer - de 29% para 41%. A erosão dos votos evangélicos em Dilma começou mais cedo e se estabilizou depois do primeiro turno. Já a votação em Serra, que vinha ziguezagueando ao longo de setembro, dobrou de 25% na véspera da eleição para 52% esta semana.

No grupo que inclui seguidores de outros credos ou de nenhum, Serra tem o mesmo desempenho, passando de 20% em meados de setembro para os atuais 41%. Dois movimentos parecem inequívocos. Primeiro, a migração de eleitores dilmistas sensibilizados pela campanha clerical que a acusava de ser "a favor do aborto". Em 2007 ela defendeu sem tergiversar a descriminalização da prática, além das situações em que é permitida - na contramão de maioria esmagadora (entre 70% e 80%) dos brasileiros. O segundo movimento captado pelo Ibope é a adesão a Serra - na proporção de 2 para 1 - dos eleitores religiosos da evangélica Marina Silva.

É possível que esse fluxo já tenha se esgotado. Mas nem Dilma nem o seu mentor-presidente podem se permitir um suspiro de alívio. E tanto não podem que, uma pela porta da frente, o outro pela porta dos fundos, foram ambos anteontem, em Brasília, ao encontro de 51 representantes de correntes evangélicas para lhes prometer tudo - e o céu também. Dilma só faltou jurar que, se eleita, não moverá uma palha pelo abrandamento da legislação do aborto ou pelo casamento gay.

Instada pelos interlocutores, ficou de pôr os compromissos no papel, no equivalente à Carta ao Povo Brasileiro subscrita pelo então candidato Lula em 2002 para apaziguar os mercados. Com isso, os pastores simpáticos ao governo terão algo palpável para apaziguar os seus fiéis. Eles representam pelo menos 25 milhões de votos. Completou-se assim a inevitável capitulação de Dilma ao que o ministro de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, define como "momento medieval do processo eleitoral brasileiro". Mas outros públicos também preocupam o PT.

Os eleitores eventualmente perdidos por Dilma por conta da raivosa ofensiva de Lula contra a imprensa serão contemplados no primeiro dos 13 compromissos de governo da candidata, a serem divulgados na semana que vem "para debate na sociedade brasileira". Ali se fala em "expandir e fortalecer a democracia política, econômica e social" e garantir "irrestrita" liberdade de imprensa e de expressão. É o contrário do que está na plataforma eleitoral do PT e no texto do decreto que instituiu o 3.º Programa Nacional de Direitos Humanos.

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