A China em mudança

Parece óbvio que o potencial da demanda interna representada por uma população de 1,3 bilhão de pessoas é decisivo para o comportamento da economia chinesa. Na prática, porém, a demanda interna não tem tido essa importância, e isso ficou claro no discurso com que o primeiro-ministro Wen Jiabao abriu a sessão anual do Congresso Nacional do Povo - ao final do qual transmitirá o cargo a seu sucessor, Li Keqiang.

O Estado de S.Paulo

08 Março 2013 | 02h14

Para garantir que a economia cresça 7,5% em 2013 - o que confirmará o fim de três décadas de crescimento médio superior a 8% ao ano, já prenunciado pela expansão de 7,8% do PIB em 2012, o mais baixo desde o fim da década de 1990 -, o governo de Pequim executará um orçamento recorde e aumentará o déficit público para cerca de 2% do PIB (em 2012, foi de 1,6%). Além dos gastos públicos, o governo de Pequim espera contar com o aumento do consumo interno para impulsionar a atividade econômica.

Há anos os dirigentes chineses falam em estimular o consumo, tanto por razões econômicas como sociais e políticas. O modelo seguido nas últimas décadas, que assegurou um longo período de crescimento acelerado, transformou a economia da China na segunda maior do mundo, superando a do Japão, e retirou da miséria mais de 400 milhões de pessoas, mas não conseguiu proporcionar melhores condições de vida à maioria da população em ritmo compatível com o aumento da produção.

Apesar de seu extraordinário crescimento, a China continua almejando incluir-se entre os países de renda média. Mesmo que alcance essa classificação, continuará sendo um país desigual, em termos de renda e de condições de vida. Estimativas da ONU indicam que 13% dos chineses vivem com renda diária média inferior a US$ 1,25.

A persistência desse quadro pode resultar em descontentamentos com impactos políticos imprevisíveis. Por isso, o governo chinês vem falando em mudança do modelo econômico, no qual diminua o peso dos investimentos, que têm sustentado o crescimento da economia, e aumente a participação do consumo interno. A produção, de sua parte, tenderá a se voltar menos para o mercado externo e buscar atender o consumidor local.

A desaceleração das economias que mais importam da China, que reduziu para 6,2% a expansão do comércio exterior chinês (em 2011, o aumento tinha sido de 22,5%), tornou mais necessária a mudança do foco da política econômica para o mercado interno. "O desenvolvimento desequilibrado, descoordenado e insustentável continua a ser um problema proeminente", disse Wen em seu discurso. Por isso, o governo chinês deverá manter a expansão da demanda interna como a estratégia de crescimento de longo prazo, sem nunca se desviar dela, completou.

É possível que, desta vez, as mudanças na economia mundial forcem o governo de Pequim a transformar em ações práticas o que até há pouco não passava de um discurso bem articulado e fundamentado em favor da melhora das condições de vida da população, por meio de elevação da renda e de estímulos ao consumo. Se isso ocorrer, os benefícios alcançarão outros países, entre os quais o Brasil, que terão a oportunidade de ampliar suas exportações para a China.

Esta é, porém, uma entre muitas mudanças de que a China necessita para continuar a crescer no ritmo necessário para assegurar condições de vida dignas para sua população. Há disposição de parte das autoridades chinesas de, pelo menos, discutir essas questões.

Há cerca de um ano, o governo de Pequim tornou público um documento conjunto, elaborado por técnicos chineses e do Banco Mundial, que aponta para o risco de uma crise econômica caso a China não faça outras reformas, destinadas a assegurar maior eficiência e competitividade. Entre as mudanças sugeridas estão a redução do papel das empresas estatais - que dominam o setor de infraestrutura - e a adoção, por elas, de modelos de gestão baseados na eficiência e nos resultados. Os resultados positivos dessas mudanças não se limitariam à economia chinesa.

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