A consagração de Xi Jinping

Ao colocá-lo no mesmo nível de Mao Tsé-tung e Deng Xiaoping, o 19.º Congresso do Partido Comunista da China (PCC) dá ao presidente Xi Jinping, junto com um novo mandato, o poder necessário para executar o programa que anunciou

O Estado de S.Paulo

27 Outubro 2017 | 03h06

Ao colocá-lo no mesmo nível de Mao Tsé-tung e Deng Xiaoping, os líderes responsáveis pela reorganização e o desenvolvimento da China depois da tomada do poder pelos comunistas em 1949, o 19.º Congresso do Partido Comunista da China (PCC) dá ao presidente Xi Jinping, junto com um novo mandato, o poder necessário para executar o programa que anunciou, destinado à afirmação de seu país como grande potência na cena mundial e a melhora das condições de vida da população, sob a mão de ferro do aparelho partidário.

A consagração de Xi Jinping não poderia ser mais clara e explícita: seu nome e suas ideias foram colocados na Constituição do PCC, o que só havia acontecido, com o líder ainda em vida, com Mao. Isso foi feito também com Deng, mas depois de sua morte. Num país onde o simbolismo é muito forte, a decisão do 19.º Congresso deixou evidente o controle que o presidente mantém sobre o partido e o aparelho do Estado.

O retrospecto que fez em seu discurso da história da China desde 1949 mostrou Xi Jinping agora mais seguro de si. Ele a dividiu em fases: a de Mao, de três décadas, durante as quais foi instaurado o comunismo e garantida a unidade do país; e a de Deng, a partir de 1978, quando a China abre e moderniza a economia com a adoção de algumas regras capitalistas de mercado, iniciando um período de rápido crescimento. Mao encerrou um longo período de guerra civil e garantiu a independência do país e Deng lhe trouxe a prosperidade e lhe possibilitou tornar-se hoje a segunda economia do mundo.

Embora sem dizer isso explicitamente, Xi Jinping indicou que o que chama de “nova era”, agora iniciada sob seu comando, constituirá uma terceira fase, vista por ele como desdobramento das duas anteriores e sem dúvida tão importante quanto elas. E deixou de lado também a modéstia, ao iniciar seu segundo mandato presidencial de cinco anos com claros sinais de uma volta ao culto da personalidade, que marcou a era de Mao: “Estamos todos orgulhosos e confiantes de viver nessa grande era e sentimos a grande responsabilidade diante de nós”.

As ideias de Xi Jinping, constantes de seus discursos, que passam a fazer parte da Constituição do PCC, serão ensinadas obrigatoriamente em todos os níveis do sistema de ensino – do fundamental ao universitário – e nos cursos de doutrinação do partido, além de difundidas pelos meios de comunicação controlados pelo governo. Seus pontos principais são um crescimento econômico orientado pelo que chamou de “socialismo de características chinesa em uma nova era”, mais lento – mas cujas taxas, mesmo assim, deverão continuar elevadas, em comparação com a média mundial –, porém de melhor qualidade, para atenuar as tensões e as desigualdades sociais; e a consolidação da China como potência econômica, militar e diplomática até meados do século. Neste último caso, sem restrição às regras capitalistas do mercado global e do comércio internacional.

A situação muda de figura no campo político, em outro item importante no qual o presidente fez questão de insistir: o fortalecimento da disciplina do PCC e do seu papel de condutor da política do país, sem concessões a qualquer reivindicação de democracia, direitos humanos e liberdade de expressão, vistas como ideias ocidentais completamente estranhas ao regime.

Os limites ao poder de Xi Jinping são de duas ordens. O primeiro é que boa parte das políticas que propõe não são propriamente suas, mas expressam a orientação do partido. Outra é que sua aceitação pela sociedade chinesa é ainda muito menor que a de Mao, um herói nacional, ao qual já vem sendo comparado, e mesmo de Deng, visto como o grande responsável pelo crescimento e o dinamismo da economia chinesa. Situação que pode mudar com o controle pelo presidente do sistema educacional e da máquina de propaganda.

Esse é o cada vez mais poderoso e incontornável ator da cena internacional.

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