A crise argentina

Tendo garantido, há oito meses, que um dos princípios de sua política econômica era "cuidar do valor da moeda" e, por isso, aconselhava os que pretendiam se enriquecer à custa da desvalorização do peso a "esperar outro governo", a presidente argentina, Cristina Kirchner, nada teve a declarar nos últimos dias. Seu governo não terminou, mas o peso se desvalorizou vertiginosamente. A queda na quinta-feira foi a maior desde 2002, quando a Argentina estava mergulhada numa grave crise financeira e política. Só em janeiro, a desvalorização é de mais de 20%. Uma discreta intervenção do Banco Central no mercado oficial de câmbio evitou que a cotação do dólar ficasse acima de 8 pesos.

O Estado de S.Paulo

25 Janeiro 2014 | 02h07

Numa variação que vem sendo interpretada como a medida da desconfiança com relação à política econômica do governo argentino, a desvalorização do peso no mercado paralelo já era muito forte e acabou chegando ao mercado oficial, diante da reação quase complacente do Banco Central à alta do dólar nos últimos dias.

Como a economia, o governo está em crise e sem apoio popular. Pesquisas recentes mostram que dois terços da população não apoiam a gestão de Cristina Kirchner. Sobre as medidas tomadas pelo governo no ano passado, mais de 90% consideram ruins as ações para conter a inflação e 71% acham que os acordos de preços negociados com supermercados e produtores não tiveram eficácia. Entre os problemas que o governo deveria solucionar rapidamente, 60% apontaram os ligados à segurança, 38,8% citaram a inflação e 31,5% lembraram o desemprego. A esses, poderiam ser acrescentados outros, como a precariedade da infraestrutura de transportes, especialmente na região metropolitana de Buenos Aires, e de energia. A qualidade de vida no país piorou nos últimos anos.

À falta de uma política confiável de combate à inflação, sem saber como ficará a política cambial e com as indicações de desaceleração da atividade econômica, os argentinos passaram a comprar dólares no mercado paralelo - pois as operações no mercado oficial continuam controladas pelo governo, justamente para evitar que a população forme uma poupança em dólares. Mas a alta tornou-se inevitável.

O governo Kirchner vinha tentando controlar a desvalorização do peso, por meio de uma política não declarada de pequenas desvalorizações e de medidas para reduzir a demanda por dólar, como a limitação de compras no exterior com cartão de crédito e de compra de passagens e pacotes turísticos. Em boa medida, a forte desvalorização do peso nos últimos dias se deveu a decisões desse tipo.

Na quarta-feira (22/1), o governo impôs mais restrições às aquisições no exterior pela internet, limitando as compras a duas operações anuais por pessoa, com taxação de 50% do valor da transação para compras de valor superior a US$ 25. Na véspera, o governo tinha condicionado toda compra no exterior à apresentação antecipada, pelo comprador, de declaração juramentada à Administração Federal de Rendas Públicas, equivalente à Receita Federal do Brasil.

A política de "cerco ao câmbio", como ficou conhecida desde seu início em 2011, não foi suficiente para evitar a corrosão das reservas cambiais, que diminuíram de US$ 46,7 bilhões em janeiro de 2012 para cerca de US$ 29 bilhões no encerramento do mercado na quinta-feira passada. Sem poder dar respostas concretas aos que, prudentemente, buscam proteger seu patrimônio da corrosão inflacionária, o governo insiste em acusar os compradores de dólar de especuladores que querem pressionar a administração Kirchner e de criminosos que procuram lavar o dinheiro do narcotráfico.

Depois da forte desvalorização do peso, porém, o governo anunciou a liberação da compra de dólares por pessoas físicas que tenham declarado renda suficiente para isso e a redução de 35% para 20% da alíquota do tributo cobrado sobre saques com cartões no exterior, com o que aliviou um pouco a pressão sobre o peso. Mas ele ainda precisa mostrar políticas eficazes de combate à inflação, se não quiser alimentar a ansiedade da população pelo novo governo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.