A crise da USP leste

Vivendo mais uma crise, em sua curta trajetória histórica, a Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da Universidade de São Paulo - mais conhecida como USP Leste - suspendeu provisoriamente suas atividades no câmpus situado ao lado da Rodovia Ayrton Senna, onde estudam cerca de 5 mil alunos, transferindo-as para a Cidade Universitária, no Butantã, zona oeste da capital.

O Estado de S.Paulo

11 Janeiro 2014 | 02h08

Tomada às pressas, depois de a Justiça ter interditado o câmpus da USP Leste por problemas ambientais, a decisão comprometerá o calendário letivo e o desenvolvimento das atividades de pesquisa. Também acarretará graves problemas logísticos para alunos, professores e servidores. E ainda causará vultosos prejuízos financeiros para a instituição.

Apesar de o calendário prever o início das aulas para 17 de fevereiro, a Reitoria ainda não definiu os locais onde serão alocados os docentes e discentes da USP Leste no câmpus da Cidade Universitária. Por causa de uma greve realizada entre agosto e setembro, alguns cursos terão de repor aulas, para concluir o segundo semestre de 2013. As aulas foram marcadas para começar esta semana, mas o problema de transporte de alunos, professores e servidores da EACH para a Cidade Universitária até agora não foi equacionado.

Com receio de que tenham de trabalhar em dependências improvisadas, vários professores da EACH já ameaçaram fazer greve. Os pesquisadores afirmam que não tiveram tempo hábil para transferir animais, plantas, amostras, materiais biológicos, microscópios e computadores, por causa do atraso na divulgação da interdição da USP Leste, o que os impedirá de dar continuidade às pesquisas. No final da semana passada, só tiveram acesso ao câmpus os vigilantes e os funcionários da empresa contratada para pôr fim a uma epidemia de piolhos de pombos, descoberta há um mês.

"Retiramos algumas plantas, mas não dava para deslocar tudo o que estava no freezer. A situação é caótica", diz Silvana Godoy, pesquisadora da área de Botânica. "Não existem no câmpus do Butantã laboratórios análogos aos existentes na USP Leste", lembra Adriana Tufaile, professora de ciências da natureza e gestão ambiental. "A diversidade das atividades de pesquisa e a necessidade de instalação de equipamentos especiais dificultaram a transferência", afirma o professor Luis Schiesari, presidente da Comissão de Pesquisa da EACH. Ao todo, foram prejudicados 40 pesquisadores que trabalham nos laboratórios de ciências naturais e 60 pesquisadores que atuam nos laboratórios de computação.

Além dos problemas de natureza científica, a interrupção das atividades de pesquisa acarreta problemas administrativos para as agências que as financiam, como a Fapesp, a Capes e o CNPq. Professores e pesquisadores estimam em R$ 18,7 milhões o montante das bolsas de estudo e de projetos financiados por agências nacionais e internacionais. Provocando um efeito em cadeia, o adiamento da conclusão dessas pesquisas também compromete o planejamento dessas agências, uma vez que elas ficam sem condições operacionais e até financeiras de bancar novos projetos já previstos.

A USP Leste foi criada na década de 2000. Depois de sua implantação, os formandos de vários cursos tiveram problemas para obter o reconhecimento de seus diplomas, p0r parte das corporações profissionais. A atual crise decorre da pressa com que seu câmpus foi construído, num antigo aterro sanitário. O problema da contaminação do solo foi detectado há muito tempo, mas, por inépcia administrativa e impasses políticos, os responsáveis pela USP demoraram para tomar as providências exigidas pela Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb). Em agosto, o órgão autuou a USP Leste. Em outubro, os alunos ocuparam a diretoria para cobrar uma solução para o problema. Em novembro, a EACH obteve licença ambiental, mas não fez as adaptações solicitadas pela Cetesb. Assim, a Justiça não teve outra saída a não ser determinar a interdição do câmpus, pedida pelo Ministério Público, causando uma crise que poderia ter sido evitada.

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