A crise de Dilma vai à Turquia

A crise política dá ao Brasil uma posição singular – e nada invejável – no cenário global esboçado pelos economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI) para a reunião de ministros do Grupo dos 20 (G-20), realizada neste fim de semana em Ancara, na Turquia. Além de uma análise global, especialmente sombria no caso dos emergentes, o relatório resume o desempenho recente e os maiores problemas das principais economias. O quadro geral e a análise caso a caso incluem fatores como a desaceleração da China, a depreciação das commodities, a recuperação ainda lenta na Europa, a perspectiva de alta dos juros americanos, a instabilidade cambial e os grandes entraves estruturais.

O Estado de S. Paulo

05 Setembro 2015 | 03h00

O balanço geral destaca a perda de vigor dos emergentes no segundo trimestre e uma recuperação mais lenta nos países avançados. Estes devem ganhar um modesto impulso a partir deste semestre. A melhora dos emergentes só deve ocorrer no próximo ano.

O Brasil recuou mais do que o esperado, segundo o relatório, enquanto a confiança de empresários e consumidores continuou a diminuir num ambiente de “condições políticas em deterioração”. Em outra passagem a descrição dos problemas é mais ampla, mas a singularidade se mantém: “No Brasil, a fraca confiança de empresários e consumidores, no meio de condições políticas difíceis, e o necessário aperto da política macroeconômica devem enfraquecer a demanda interna, com o investimento caindo de forma particularmente rápida”.

No caso da Rússia, há referência ao efeito das sanções econômicas associadas a “fatores geopolíticos”, isto é, à crise com a Ucrânia. Fatores geopolíticos são também mencionados em relação a países do Oriente Médio e do Norte da África. Mas só o Brasil é citado como país com um quadro político interno bastante grave para afetar o funcionamento da economia.

Em outros documentos do FMI houve referências à corrupção e ao escândalo da Petrobrás. A palavra corrupção foi usada pelo economista-chefe do Fundo, Olivier Blanchard, numa entrevista coletiva. A edição de abril do Panorama Econômico Mundial, a publicação mais importante da instituição, citou a investigação sobre a Petrobrás como um dos fatores da contração econômica do País neste ano, estimada naquele momento em 1%. Na atualização do quadro, em julho, a recessão projetada passou para 1,5%. No fim de agosto a expectativa do mercado já era de um PIB 2,26% menor que o de 2014 e de mais um ano de retração em 2016.

Se os autores do novo relatório do FMI precisassem de alguma confirmação da grave crise política brasileira, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, resolveria esse problema. Na quinta-feira ele suspendeu a viagem à Turquia para uma reunião no Palácio do Planalto. A reunião terminou com mais uma declaração de apoio à sua atuação no Ministério e a sua permanência no governo. Um dia antes o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, ex-chefe de Levy, havia conversado com a presidente para defender o ministro.

Na madrugada de sexta-feira Levy embarcou, afinal, para a Turquia, marcando com seu atraso a desagregação do governo brasileiro. Horas depois os jornais circulariam com declaração do vice-presidente, Michel Temer, sobre as dificuldades da presidente Dilma Rousseff para enfrentar mais três anos de popularidade extraordinariamente baixa.

Como outros emergentes, o Brasil tem sido afetado pela desvalorização das commodities, pela instabilidade cambial e pela piora das contas públicas. Não tem espaço, ao contrário das economias avançadas e de algumas emergentes, para estimular a atividade afrouxando as políticas fiscal e de juros, por causa do rombo nas finanças do governo e da inflação muito acima da meta. Cuidados semelhantes são recomendados a vários emergentes. Na maior parte deles, no entanto, os desajustes são menos graves e os problemas de governança, muito menos agudos. O relatório omite esses detalhes, mas quem os desconhece?

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