A crise dentro da crise

O Homo brasiliensis tem vivido dias de intensa salivação em torno da expectativa de vacância do poder, o que levou a uma sucessão de ajustes dentro do “ajuste” que logo degeneraram num arremedo de campanha eleitoral em circuito fechado que, neste país indigente de repertório político e propostas concretas de reforma institucional, se traduz no mesmo torneio de golpes baixos que levou à instalação desta crise.

Fernão Lara Mesquita, O Estado de S. Paulo

16 Julho 2015 | 03h00

A ofensiva de Dilma para “defender o mandato” apoia-se cada vez mais em expedientes idênticos aos utilizados na ofensiva para conquistar o mandato, que, por sua vez, se reproduzem com sinal invertido nos atos de sabotagem dos 30 e tantos “partidos”, até há pouco todos “de esquerda”, agora todos “de oposição”, inclusive o da própria presidente da República. De um lado, acena-se com cargos e isenções aos sacrifícios do “ajuste” para setores com força bastante para fazer diferença na hora de a onça beber água. Do outro, a brincadeira é aprovar medidas temerárias capazes de destruir o que resta da confiança no País para forçar Dilma e o PT a vetos que exponham a demagogia a que sempre recorreram.

Dá até para entender a tentação de devolver ao PT o veneno que ele fez os outros tragarem a vida toda. Mas quem se permite essa indulgência passa a fazer jus à mesma adjetivação com que brindava o PT quando era ele a fazer gato e sapato do futuro da Nação para extrair de cada crise o máximo de virulência – isso não é mais que usar o povo como bucha de canhão num jogo de chantagem de quem só pensa no poder, e não no interesse nacional.

A resposta de Dilma é repetir mecanicamente que a crise “é do mundo”, e não sua ou do PT, que, por sua vez, “não vê” crise nenhuma, só “um problema de comunicação” entre a Presidência e o Congresso, sanável com mais injeções de “graxa”. Por via das dúvidas, os dois cuidam, cada um segundo a figura penal incorrida, de “amaciar” o poder titulado para julgar o “núcleo político” da Lava Jato, que, lá do Olimpo, brada, para começar, que “exige” aumento de 78% deste Brasil que cambaleia à beira do abismo, numa espécie de disputa para ver quem arrebenta mais o que resta da credibilidade e da certeza jurídicas, pressupostos do desenvolvimento.

A cobertura que faz a imprensa dessas derrotas acachapantes do Brasil – aceitando os termos dos que disputam a carniça ao tratar cada golpe como “derrota do governo” ou “vitória da oposição” – incentiva políticos em busca de 15 minutos de fama a persistirem nesse comportamento deletério, enquanto aqui fora o desempego come solto, multiplicando a potência da bomba social que vai explodir logo adiante.

Vem de longe esse descarrilamento geral. “Ajuste para quê”? O PT nunca o disse nem lhe foi perguntado, quer pela oposição, quer pela imprensa. O problema não é, portanto, de “falha de comunicação”, é de ausência de objetivo estratégico. Nenhum dos lados em disputa vai além dos expedientes táticos, uns para não perder o poder, outros para tomá-lo. Ninguém tem nada a propor sobre o que fazer com o poder conquistado; tudo se esgota na conquista mesmo. A causa fundamental da crise brasileira continua intocada. Ninguém em Brasília fala nela; ninguém fora de Brasília exige que Brasília fale nela.

Já foi o tempo em que os Estados nacionais podiam fechar-se ao mundo e manter uma estabilidade relativa, ainda que entrincheirados no passado. Hoje o mundo atropela impiedosamente quem atrasa o passo. Nesta arena de “chinas”, o Brasil não voltará à porta de entrada do mercado global antes de reduzir à metade ou à terça parte o peso do Estado, da corrupção e do custo do trabalho e construir um aparato institucional que legalize a honestidade e seja leve e flexível o bastante para não travar o País a cada soluço de um mundo em constante mudança.

A obra é ciclópica e requer, apenas para ser iniciada, anos de um disciplinado exercício de sintonia do senso crítico da Nação em torno de um projeto estratégico apoiado nos fatos, cuja mera existência a maioria jurássica da nossa “intelligentsia” século 20 ainda não reconhece, e de persistente cobrança da sua execução.

De que tamanho é o Estado brasileiro hoje? Quantos são, entre nós, os que vivem de contribuições e os que são instados a enfrentar o mundo carregando esses outros nas costas? Como a riqueza nacional está distribuída entre eles? Como se comparam os salários e aposentadorias versus a carga de trabalho deles, nossos e da comunidade meritocrática planetária? Com quanto contribuiu para o “ajuste” este governo que acaba de confiscar de quem ganha até dois salários mínimos a metade do abono anual? Como bate a crise em Brasília?

Os grandes números da equação brasileira são eloquentes. A carga tributária oficial está em 35% do PIB. O déficit é de outros 6%. O Brasil que não produz e, alegando falta de verba, não investe nem em infraestrutura, nem em educação, nem em segurança, nem em saúde – e que não contribuiu com um tostão de “seu” para o “ajuste” – consome por ano, considerado apenas o “por dentro”, 41% do PIB, que equivalem a R$ 2.400.000.000.000,00 (dois trilhões e quatrocentos bilhões de reais) apenas com salários, mordomias, aposentadorias e pensões desfrutados pela casta dos sócios do poder.

Mas, apesar da clamorosa enormidade desses números, você nunca viu uma reportagem mostrando ao Brasil do desemprego, dos doentes no chão e dos 56 mil assassinados por ano como vive este “outro lado” que tanto tem sem ter feito por merecer; qual a minúcia dos números do seu mundo comparado ao nosso; se, quando e como eles pagam as suas contas; como vivem as suas famílias, comparadas às nossas.

Enquanto esse não for o tema obsessivo e diário de todos os jornais, rádios e televisões do País; enquanto não se tornar impossível mencionar qualquer número nesta terra sem referi-lo a essa realidade; enquanto ela não for conhecida de cabo a rabo por todos e cada um dos brasileiros, o Brasil não tem a menor chance de voltar para dentro do mundo.

*Fernão Lara Mesquita é jornalista, escreve em www.vespeiro.com

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