A cura da Petrobrás

Devastada pela corrupção, pelo aparelhamento, pela ingerência e pelos desmandos do governo petista, a Petrobrás, maior empresa brasileira e, nos bons tempos, uma petroleira respeitada em todo o mundo, acaba de anunciar seu plano de negócios para 2015-2019. É um programa de recondicionamento e de recuperação, com promessas de maior disciplina financeira, redução do endividamento, investimentos menores, objetivos menos ambiciosos e maior empenho na busca de produtividade. A apresentação do plano seria um evento mais completo com a presença da presidente Dilma Rousseff e de seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva. Eles poderiam falar sobre a desastrada contenção de preços dos combustíveis, sobre as piores decisões de investimentos e sobre os critérios de nomeação de executivos da empresa durante o longo e custoso período petista.

O Estado de S. Paulo

30 Junho 2015 | 03h00

Mas Dilma estava nos Estados Unidos, tentando, entre outras coisas, consertar gravíssimos erros de diplomacia comercial cometidos por seu antecessor a partir de 2003 – e por ela mesma, em tempos mais recentes. Quanto a Lula, acuado pelo avanço da Operação Lava Jato, tinha uma lista de compromissos com a companheirada, em Brasília. Sua pauta: discutir estratégias para rearticular o PT e para livrá-lo – e a si mesmo – da incômoda situação criada pelas investigações sobre corrupção.

Há poucos anos, logo depois da descoberta do pré-sal, o presidente Lula e sua ministra Dilma Rousseff bravatearam sobre a transformação do Brasil num dos líderes mundiais de produção de petróleo. Vestiram macacões da empresa, sujaram as mãos de óleo, anunciaram investimentos enormes e até promoveram a mudança da legislação do setor. Transformaram a Petrobrás em ferramenta de uma política industrial anacrônica. Impuseram-lhe a obrigação de respeitar, em suas compras, um absurdo critério de conteúdo nacional.

Vincularam seus investimentos a conveniências político-eleitorais e sujeitaram seus planos a uma pífia diplomacia pró-bolivariana. A empresa perdeu fortunas em negócios absurdos, como a compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, e em empreendimentos mal planejados, como a construção da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. Somaram-se a isso uma política populista e incompetente de preços de combustíveis e a multiplicação de oportunidades de corrupção e de relações promíscuas com interesses de partidos e de políticos aliados.

A extensão da pilhagem começou a ser conhecida com a Operação Lava Jato. O balanço do terceiro trimestre de 2014 foi publicado com cinco meses de atraso. As demonstrações do ano passado e do primeiro trimestre de 2015 mostraram perdas graves. Enquanto isso, a empresa colecionou processos no exterior – 11, até agora.

O novo plano de negócios complementa os últimos balanços, tornando mais visível o estrago produzido pelos petistas. Um corte de 37% reduziu a US$ 130,3 bilhões o programa de investimentos, o valor mais baixo desde a soma de US$ 174,4 bilhões anunciada para o período 2008-2012. Famosa nos últimos anos como a petroleira mais endividada do mundo, a Petrobrás terá de reduzir a alavancagem líquida a 40% até 2018 e a 35% até 2020. Esse indicador mede a relação entre a dívida líquida e o patrimônio líquido. Superou 35% no terceiro trimestre de 2013 e chegou a 52% no fim do trimestre inicial deste ano.

Além disso, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) terá três anos para enquadrar nos critérios do Banco Central seus aportes à Petrobrás. O dinheiro comprometido com a petroleira está acima de 50% do patrimônio de referência do banco. Será preciso baixar a proporção a 25%, limite de comprometimento com um único cliente.

É mais que uma casualidade o vínculo entre os problemas da Petrobrás e do BNDES. A gestão das duas empresas traz a marca dos critérios políticos e econômicos da gestão petista. A marca é visível também no desarranjo de empresas do setor elétrico. Em matéria de desmandos, a eficiência dos petistas tem sido irretocável.

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Editorial Estadão Petrobrás

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