A decisão do BC sobre os juros

Quando ontem escrevia este artigo, ainda não sabia o resultado da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), com encerramento previsto para mesmo dia e voltada para decidir sobre a taxa básica de juros da economia, ou Selic. Até então ela era de 7,25% ao ano desde outubro de 2012, após quedas iniciadas em agosto de 2011.

Roberto Macedo *,

18 Abril 2013 | 02h10

Ao gerir a taxa Selic, o Banco Central segue um modelo de análise econômica, o de meta de inflação, o qual teoriza que ela varia inversamente com a Selic, dado o efeito desta sobre a demanda de bens e serviços e também sobre as expectativas de inflação. Hoje o centro dessa meta é de uma inflação de 4,5% no ano, com margem de dois pontos porcentuais para cima ou para baixo. Ou seja, um valor entre 2,5% e 6,5%. Tanto o valor central como a amplitude desse intervalo são considerados altos. Os males da inflação e a dificuldade de lidar com eles e controlá-la recomendam meta centrada numa taxa menor e com intervalo mais estreito em torno dela.

Grande expectativa cercava a reunião de ontem do Copom. Desde julho de 2012 até janeiro de 2013 houve clara tendência de aumento da inflação, conforme medida pelo IPCA, o índice-meta da política do BC. A taxa mensal caiu nos últimos dois meses, mas para 0,60% e 0,47%, respectivamente, taxas bem superiores à média mensal de 0,37% que levaria ao valor central da meta em base anual. Ademais, a taxa dos 12 meses passados ao final de março chegou a 6,6% e, assim, acima do teto do referido intervalo.

Diante desse agravamento e da imobilidade da Selic desde outubro de 2012, a credibilidade do Banco Central e de sua política de metas sofreu danos no mercado financeiro e entre analistas econômicos em geral, inclusive dos meios de comunicação. Mas a vida do BC não é fácil e vinha indicando que ele se debatia quanto ao que fazer diante de uma inflação muito disseminada e pressionada por preços de alimentos - que no momento dão sinais de retroceder - e de uma economia que apenas ensaia uma recuperação depois de seu produto interno bruto (PIB) ter crescido à taxinha de 0,9% no ano passado. E, também, diante da falta de colaboração do governo ao executar a política fiscal e a de crédito, assunto ao qual voltaremos mais à frente neste artigo.

O resultado de reuniões do Copom é usualmente objeto de especulações ou apostas que se acirram perto de sua ocorrência. Com relação à de ontem, essas apostas mudaram nos últimos dias. Assim, no dia 12 último o jornal Valor publicou matéria mostrando que, ouvidas 37 instituições financeiras e consultorias, 29 previam que a Selic não seria alterada ontem, seis esperavam aumento de 0,25 ponto porcentual e duas, de 0,5. Contudo, após declarações mais incisivas do presidente do BC e do ministro da Fazenda, na sexta-feira passada, quanto à sua disposição de combater a inflação, pesquisa publicada ontem por este jornal, mais ampla e alcançando 83 instituições, mostrou que 53 previam aumento da Selic - 33, de 0,25 ponto porcentual e 20, de 0,50 -, enquanto 30 apostavam na estabilidade dela.

Se tivesse palpitado nessa pesquisa, eu teria ficado com esse aumento de 0,25 ponto porcentual. O leitor poderá conferir hoje se errei ou não. A notícia deve ter saído na primeira página deste jornal. Se errei, não terá sido a primeira vez; se acertei, espero que não seja a última.

Mas por que escolhi esse aumento? Ora, dada a obsessão da presidente Dilma Rousseff em ter mais um mandato, sua política econômica tem mais de política como tal do que de econômica no sentido de efetivamente resolver problemas dessa natureza. Nessa linha, o constrangimento que a inação causa ao BC teria chegado a um limite e ele seria liberado para esse pequeno aumento da Selic, que, aliás, não fará muita diferença se não tiver continuidade. Mas com isso ganharia um mês e meio até a próxima reunião, no final de maio, para refletir sobre o assunto sem as pressões do momento.

Falo do resultado da reunião, e não de minha preferência pessoal quanto ao que fazer. Concordo com o governo no seu objetivo de trazer para valores civilizados a taxa básica de juros, e estes em geral. Mas não pode buscar esse objetivo com a política fiscal e a de crédito que pratica, fortemente expansionistas, que deveriam ser mais comedidas para sustentar de forma compensatória essa busca de juros mais baixos, de modo que a inflação não fosse estimulada. E não vejo disposição do governo para mudar isso, pois só pensa naquilo: a eleição presidencial de 2014.

Assim focado, todavia, não está isento de riscos políticos em face de desdobramentos econômicos. A inflação hoje está disseminada, e é questão macroeconômica que não se resolve com medidas específicas voltadas para conter preços de bens e serviços em setores específicos, como faz o governo. As causas da inflação estão nessas outras políticas expansionistas, como a fiscal e a de crédito, e numa pressão de custos e de demanda que vem de salários que crescem acima da produtividade do trabalhador. A oferta de bens e serviços também cresce pouco, pois os investimentos são fracos.

Nessas circunstâncias, a inflação poderá até cair um pouco nos próximos meses, quando se espera que os preços dos alimentos aumentem menos do que até recentemente, e poderão até retroceder, como os do tomate e do feijão. Mas sem um ataque às suas causas mais amplas e profundas a inflação poderá ressurgir com renovada força já mais perto da eleição presidencial. Esse risco poderá materializar-se, mas tampouco vejo o governo adotando então medidas consistentes e efetivas para combatê-lo. Ao contrário, o maior risco é do Brasil, o de contemplar um circo eleitoral em que o governo recorreria a passes de mágica anti-inflacionária, mais uma vez iludindo o presente em prejuízo do futuro do País.

* Roberto Macedo é economista (UFMG, USP e Harvard), professor associado da FAAP, consultor econômico e de ensino superior.

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