A desordem cambial

Guerra ou não, há uma desordem cambial no mundo e seus efeitos são muito ruins para várias economias, incluída a brasileira. A crise global não acabou. Algumas de suas piores consequências se manifestam agora no comércio internacional. Dólar muito barato e real valorizado encarecem o produto brasileiro, dificultam as exportações do Brasil e abrem espaço para um rápido aumento das importações. Do outro lado do mundo, as autoridades da China mantêm sua moeda subvalorizada. Mais do que nunca, aproveitam essa vantagem para deslocar os concorrentes e aumentar sua presença em todos os mercados. O jogo é pesado. Há poucos dias o governo japonês denunciou a compra de títulos de sua emissão pelos chineses. Estranho protesto? Ao contrário; é muito compreensível, porque um dos efeitos dessa operação financeira seria mais uma valorização do iene, com prejuízo para as empresas do Japão. Enquanto aceitam com prazer a depreciação do dólar, os americanos, coadjuvados pelos europeus e japoneses, continuam pressionando as autoridades de Pequim para permitir a valorização do yuan.

, O Estado de S.Paulo

30 Setembro 2010 | 00h00

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, usou a palavra guerra para descrever a desordem cambial. O presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, evitou a palavra ao tratar do mesmo assunto um dia depois, na terça-feira. Mas acrescentou: se o Grupo dos 20 (G-20) não conseguir uma solução coordenada, cada país tentará resolver o problema a seu modo. Em outras palavras: pode não haver guerra hoje, mas haverá uma, em breve, se as maiores potências não eliminarem o descalabro cambial.

Ministros de Finanças do G-20 reúnem-se em Washington na próxima semana, em evento paralelo à assembleia do Fundo Monetário Internacional (FMI). A questão do câmbio estará em sua agenda. Na melhor hipótese, conseguirão rascunhar uma proposta para o encontro de cúpula do grupo, marcado para novembro, em Seul.

Nas duas ocasiões, as principais figuras em cena falarão em nome dos Estados Unidos e da China. Promessas de cooperação já ocorreram em reuniões anteriores, quando se discutiram ações para reequilibrar a economia mundial. Os grandes emergentes deveriam aumentar suas importações e depender mais do mercado interno para o crescimento econômico. A China cumpriu parcialmente esse papel, neste ano, mas, como sua moeda continuou subvalorizada, os produtores chineses continuaram levando uma grande vantagem na competição global. O Brasil pagou um preço muito mais alto, porque foi afetado tanto pela depreciação do dólar como pela manutenção do yuan artificialmente subvalorizado.

O Brasil não deve pagar pelo desequilíbrio mundial, disse em Londres o presidente do BC. Não deve, mas está pagando. O BC tem comprado volumes enormes de dólares, em parte com o objetivo de atenuar a instabilidade cambial. O estoque de reservas do Brasil cresceu 23% desde setembro do ano passado, passando de US$ 221,6 bilhões para US$ 273 bilhões. Somente a Suíça tem acumulado reservas com maior rapidez - 177% até junho.

Talvez o real estivesse mais valorizado sem essas operações, mas o desajuste continua muito grande. Não só pelos juros, mas também pelo crescimento econômico, o Brasil continua atraente para os aplicadores internacionais, como foi ressaltado esta semana pelo Financial Times.

O próximo passo poderá ser um novo aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) cobrado no ingresso de capitais de curto prazo, como já foi admitido tanto pelo ministro da Fazenda quanto pelo presidente do BC. Esse tipo de intervenção, justificável em algumas ocasiões, tem normalmente consequências indesejáveis, a começar pelo encarecimento do capital. Mas o governo brasileiro não poderá ficar parado, enquanto a desordem global não for combatida. Terá de continuar intervindo no câmbio, como puder e enquanto tiver munição. Produziria efeito maior e mais duradouro se eliminasse outros obstáculos à competitividade - como custos numerosos, bem conhecidos e mais altos no Brasil do que na maior parte dos concorrentes. Mas Brasília não fez isso nos últimos oito anos e não fará nos próximos três meses.

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