A difícil arte de governar

Prestes a completar um ano, a gestão de João Doria à frente da Prefeitura de São Paulo é avaliada como ruim ou péssima por 39% dos paulistanos, segundo pesquisa do Datafolha

O Estado de S.Paulo

07 Dezembro 2017 | 03h02

Prestes a completar um ano, a gestão de João Doria à frente da Prefeitura de São Paulo é avaliada como ruim ou péssima por 39% dos paulistanos, segundo pesquisa do Datafolha. No início do ano, o porcentual de reprovação do governo municipal era de 13%. A enquete também revelou outro número preocupante para a imagem do prefeito: 70% consideram que ele fez menos do que era esperado. Como se vê, há uma significativa frustração com aquele que foi eleito prometendo gestão eficiente e modernização da administração da capital.

João Doria foi eleito em primeiro turno com a bandeira de gestor. E é como gestor que vem sendo reprovado pelos paulistanos. Os desleixos nos serviços de zeladoria – parques e praças malcuidados, lixo nas calçadas, buracos nas ruas, semáforos enguiçados, entre outros problemas – geram insatisfação nos moradores da capital. Por mais que tenha sido instalado o “maior corredor verde do mundo” na Avenida 23 de Maio, o slogan Cidade Linda está longe de ser realidade.

O Estado revelou que a Prefeitura de São Paulo gastou em 2017 apenas 56% dos R$ 147 milhões previstos no orçamento para os serviços rotineiros de manutenção do sistema de drenagem: limpeza de bueiros, bocas de lobo, córregos e piscinões. É um número preocupante, tendo em vista os recorrentes estragos causados pelas chuvas na capital. Uma gestão profissional, no setor público e no privado, deve estar pautada por rigorosa avaliação de riscos.

O descontentamento com a gestão de João Doria também se deve à mobilização feita pelo prefeito ao longo de vários meses para lançar o seu nome como possível candidato à Presidência da República em 2018. Além de viagens ao exterior, sua agenda esteve repleta de eventos pelo Brasil afora. Não era muito animador ver a cidade descuidada e, ao mesmo tempo, constatar que o prefeito, com menos de um ano na administração municipal, estava com os olhos voltados para Brasília. Para piorar, tudo isso vinha de alguém que dizia não ser político, mas um diligente trabalhador.

Ao ser questionado, João Doria dizia que as viagens não diminuíam a eficiência de sua gestão. “Não há nenhum impedimento para que o prefeito da cidade de São Paulo viaje, além do que, com a tecnologia você pode ligar, cobrando a todos e estar presente”, disse em agosto o prefeito João Doria, em Palmas (TO). Seja como for, o prefeito parece ter-se dado conta de que sua estratégia não levaria a bom porto. Com realismo, admitiu que a candidatura a presidente da República dependia de variáveis que ele não controla e anunciou recuo em seus planos para o Palácio do Planalto.

Certamente, a má nota do primeiro ano de João Doria à frente da Prefeitura de São Paulo não é uma avaliação irreversível. Esta pode ser uma excelente ocasião de aprendizado, se levar às necessárias correções na gestão municipal. Tem, assim, o prefeito uma oportunidade muito boa para demonstrar suas qualidades de gestor.

Talvez seja essa a maior discrepância notada pelos paulistanos. João Doria obteve notório sucesso em sua carreira como empresário. Mas ainda não se viu esse mesmo sucesso refletido na administração da capital. Os sinais são ainda contraditórios. Houve notícias significativas, como o fim da fila de espera por exames. Por meio do programa Corujão da Saúde, em 83 dias foram realizados 342 mil procedimentos.

Administrar a cidade é, no entanto, bem mais complexo do que produzir alguns resultados momentâneos, slogans chamativos ou demissões ruidosas. Em novembro, João Doria demitiu Paulo Cahim do cargo de prefeito regional de Casa Verde/Cachoeirinha. Segundo nota da Prefeitura, Cahim foi exonerado “por ter demonstrado inconformismo diante das dificuldades, em lugar de empenho e criatividade na superação de desafios, como exige a atual administração municipal de seus colaboradores”. Pois bem, empenho e criatividade são o que exigem os paulistanos de seu prefeito. Até 2020.

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