A diplomacia pessoal de Obama

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, obteve uma vitória pessoal ao conseguir arrancar de Israel e Turquia o compromisso de reatar relações diplomáticas. Identificado com a doutrina de "liderar por detrás", até agora Obama havia se envolvido muito pouco nas crises da região. Na primeira viagem internacional de seu segundo mandato, porém, o presidente tentou mostrar que estará mais atuante, no momento em que a guerra civil na Síria ameaça espalhar-se.

O Estado de S.Paulo

26 Março 2013 | 02h11

Na semana passada, minutos antes de deixar Israel, já no aeroporto, Obama intermediou um telefonema entre os premiês israelense, Binyamin Netanyahu, e turco, Recep Tayyip Erdogan. Na conversa, a pedido de Obama, Netanyahu pediu desculpas pelas mortes causadas por agentes israelenses a tripulantes e passageiros de um navio turco com ativistas que pretendia romper o bloqueio a Gaza, em 2010, e prometeu indenizar as famílias das vítimas e aliviar o cerco ao território palestino. O gesto de Netanyahu era uma exigência de Erdogan para retomar as relações entre os dois países, rompidas desde aquela época.

Do lado israelense, a motivação para reatar com os turcos estava, principalmente, na necessidade de ter um aliado regional forte para enfrentar a crise na Síria. Tendo Obama como fiador pessoal, tornou-se politicamente mais fácil para Netanyahu acelerar a reaproximação, que sempre foi do interesse de Israel.

Para o governo turco, fazer as pazes com Israel tornou-se mais importante, em razão da guerra síria, do que os lucros políticos domésticos que auferia ao capitalizar a causa palestina e se opor aos israelenses. Além dos prejuízos comerciais na região, a guerra civil síria gerou uma onda de refugiados - quase meio milhão de sírios já entraram na Turquia - e passou a ameaçar sua fronteira. Os turcos pediram ajuda à Otan, na forma de uma zona de exclusão aérea, mas só receberam sistemas de defesa antimísseis.

Nesse contexto, a ajuda de Israel tornou-se essencial, principalmente para enfrentar o grande pesadelo comum entre os dois países: o eventual uso de armas químicas por parte das forças do ditador sírio, Bashar al-Assad. A Turquia não tem tecnologia nem informações suficientes para essa tarefa. Com a ajuda de Israel, porém, Ancara espera ser capaz de monitorar o arsenal e as tropas de Assad, além dos movimentos dos insurgentes. Ao mesmo tempo, as potências ocidentais têm evitado fornecer ajuda direta aos rebeldes sírios, mas Israel certamente não se sentirá constrangido em fortalecer os grupos sunitas moderados que ora lutam pelo poder na Síria, algo que interessa muito aos turcos.

Há também um aspecto econômico importante. A Turquia importa praticamente todo o gás que consome e se tornou dependente de fornecedores russos e iranianos, que têm explorado essa situação cobrando caro por seu produto. Mas Israel acaba de descobrir grandes reservas de gás no Mediterrâneo e aparece, portanto, como um atraente parceiro para os turcos.

Contudo, não se deve comprar a versão sobre a reaproximação entre Israel e Turquia por seu valor de face. Se os laços forem realmente reatados, eles serão muito menos sólidos do que no passado recente, quando os dois países eram aliados. Para a Turquia, continua a ser interessante cultivar contatos com o grupo palestino radical Hamas, e Erdogan condicionou a reabertura das embaixadas ao pagamento das indenizações prometidas por Israel. O governo israelense, por sua vez, mandou avisar que o bloqueio a Gaza não será extinto, mas apenas relaxado, e será reforçado se os palestinos dispararem foguetes em seu território. Como se nota, a costura diplomática deverá ser muito mais delicada e trabalhosa do que deu a entender o breve telefonema entre Netanyahu e Erdogan.

Ademais, os limites da diplomacia pessoal de Obama, ora tão festejada, ainda serão testados num campo bem mais complexo, o do conflito entre Israel e Palestina. Nesse caso, até agora, a atuação do presidente americano foi apenas medíocre.

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