A eleição americana vista de Babel

Se simplesmente fechar-se ao mundo resolvesse alguma coisa, obama já o teria feito

*Fernão Lara Mesquita, O Estado de S.Paulo

18 Novembro 2016 | 03h40

De repente, não mais que de repente, o mundo ficou na iminência de acabar! Depois que passou a votar republicano, o eleitorado cativo dos democratas nos últimos 60 anos transformou-se subitamente numa ameaça para o futuro da humanidade...

Nunca será demais repisar: o pior erro da imprensa americana não foi não prever a vitória de Donald Trump, foi contribuir decisivamente para ela com os milhões de votos de repúdio que mobilizou com o fervor religioso com que, dependendo sempre das conveniências do momento, pisa nas pessoas e nos fatos para absolvê-las ou condená-las à danação eterna segundo os dogmas do multiculturalismo e das ideologias de gênero e raça, desde que se assumiu como a polícia dessa ditadura da “correção política”, que se pretende universal.

A candidatura Trump, é fato medido, nasceu e se alimentou da exasperação que isso causa. E, no entanto, com o eco das suas denúncias de ontem ressoando ainda, lá está ela atirando gasolina sobre as brasas, negando o veredicto das urnas, assumindo o “discurso do medo” e abusando da adjetivação preconceituosa, racista e intolerante contra quem votou contra as suas “verdades” que apontava como os pecados mais ameaçadores do “trumpismo”.

Não é um fenômeno novo nem isolado. A reação figadal da fatia crescente do eleitorado americano que habita o lado escuro da globalização e não identifica no mundo em que vive o que a mídia “estabelecida” quer lhe impor como “a realidade” não será de todo estranha às massas aqui, do nosso favelão continental de 60 mil assassinatos por ano, a quem os “nova-iorquinos” da mídia “bem-pensante” brasuca pretendem fazer crer que nada é a loucura dessa nossa combinação sinistra de supersalários na corte (que eles acobertam há anos com um escandaloso silêncio) com miséria e impunidade nas ruas, tudo vai da “minoria” à qual pertence o assassinado da hora (ou do minuto).

Está em toda parte essa deliberação de não ver e de proibir que se veja engendrando uma exasperação às vezes ainda mais cega do que ela; extremismo engendrando extremismo na marcha batida da insensatez.

Tudo isso é decorrência de uma longa e intrincada cadeia de mentiras ancoradas todas no ponto mais fraco da condição humana que é a incapacidade de admitir os próprios erros. Essa suposta “luta de gêneros” com que tudo quer explicar a esquerda século 21 é a reencenação como farsa da “luta de classes” com que tudo queria explicar a esquerda século 20. Foi a saída que restou da sinuca conceitual em que a colocou o fato de a classe operária sindicalizada, produto exclusivo do capitalismo democrático e eleitora cativa dos “liberal” americanos que agora votou em massa em Donald Trump, ter sido empurrada para o mais escuro beco sem saída da globalização justamente pelo único produto real do socialismo que até ontem eles receitavam como remédio, que é esse novo proletariado global sem direitos nem sindicatos que trabalha por qualquer troco. “Branca” e portanto dispensada das atenções que só “as minorias” merecem, lá ficou ela esquecida pelos donos do poder há oito anos, absortos em trocar amabilidades uns com os outros, até o bilionário espertalhão se dar conta de que ela existia e poderia render fartos dividendos.

O segundo maior achado de Donald Trump, que nunca se destacou por entregar exatamente aquilo que vende – depois de Hillary Clinton, é claro –, foi afirmar que o que deixou de funcionar não foi o “sonho americano”, mas sim a relação dos Estados Unidos com o mundo e que a solução para isso não está em disseminar a cultura do direito, mas, sim, em fechar os Estados Unidos ao mundo. Mentira, ele sabe melhor que ninguém, pois se simplesmente fechar-se ao mundo resolvesse alguma coisa Obama mesmo já o teria feito, pois decisões como essa não são função de ideologia, o que as determina ou não “it’s the economy, stupid!”.

Eles precisam do mundo tanto quanto o mundo precisa deles e a crise do capitalismo democrático, vulgo “sonho americano”, isto é, do sistema que pela primeira e única vez na História da humanidade instituiu a única igualdade possível, que é aquela perante a lei, criminalizou o privilégio, estabeleceu o trabalho e a inovação como as únicas formas de legitimar a desigualdade e apartou o Estado do Capital armando a mão do primeiro para coibir a constituição de monopólios, os piores inimigos da liberdade individual e da dignidade do trabalho, pelo segundo, é muito mais profunda do que isso.

Ela decorre justamente da impossibilidade de impor a ordem democrática à natural selvageria da luta econômica fora das fronteiras nacionais e, depois da globalização do mercado de trabalho aviltado pelo capitalismo de Estado que evoluiu do socialismo, mesmo dentro dos Estados Unidos da América pois, ao contrário do que se quer fazer crer, o presidente da República é a peça mais fraca da democracia americana. Está nela como uma excreção tolerada e o poder discricionário dele é 100% nulo dos Estados Unidos para dentro e quase nulo dos Estados Unidos para fora, como comprova o fato de ser o que eles presidem, e não o sistema de exploração de todo o sempre contra o qual a revolução americana se insurgiu, que está ameaçado de desaparecer.

No dia mesmo da eleição, Harry Belafonte, o velho cantor negro cujo tempo de vida coincidiu com o apogeu do verdadeiro sonho americano, escreveu no New York Times que “os Estados Unidos são, antes de mais nada, um sonho, uma esperança, uma aspiração (de vitória do esforço e do merecimento sobre o privilégio) que pode não vir nunca a se realizar completamente, mas que nos anima a sermos sempre melhores e maiores” e que, por isso, o importante é não pôr o sonho a perder.

Nem Donald Trump, nem Hillary Clinton, muito menos essa polícia da ditadura da “correção política” para a qual não basta enquadrar as palavras e os atos, há de se sujeitar também todos os pensamentos a uma ordem unida, têm qualquer coisa que ver com ele.

*jornalista, escreve em www.vespeiro.com

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