A escolha dos republicanos

O candidato republicano à Casa Branca, Mitt Romney, apresentou-se a seus correligionários e ao eleitor americano, na convenção de seu partido, como alguém capaz de "restaurar os Estados Unidos". Para isso, enfatizou, é preciso muito mais do que as promessas vazias feitas pelo democrata Barack Obama quando se elegeu presidente, em 2008.

O Estado de S.Paulo

01 Setembro 2012 | 03h09

O espetáculo do cineasta Clint Eastwood na convenção, conversando com um Obama imaginário em uma cadeira vazia, que durou 12 constrangedores minutos, deu a medida do esforço de Romney para tentar superar o atual presidente naquilo que é uma de suas mais marcantes características - o charme. Pode-se dizer, contudo, que Clint ao menos foi mais caloroso do que o robótico candidato, cuja falta de empatia e de uma biografia interessante é uma preocupação para os republicanos desde que ele ganhou a disputa pela candidatura. Aliás, Romney vem enfrentando a desconfiança de boa parte dos republicanos ao longo da campanha - nem eles sabem definir o perfil do candidato, mas suspeitam que Romney seria mais moderado do que desejam. A ala conservadora gosta mais do candidato a vice, Paul Ryan, que está se habilitando como principal concorrente republicano em 2016, na hipótese de derrota neste ano.

Num esforço para parecer "humano", e não apenas um obscuro homem de negócios, Romney lembrou de sua mãe, apelou às mulheres e recorreu ao testemunho de colegas mórmons - religião que faz parte de seu currículo, mas da qual nada fala. Por outro lado, defendeu-se como alguém que sabe fazer dinheiro - ele tem uma fortuna avaliada em US$ 250 milhões, vinda de suas firmas de investimento. Por muito tempo, conselheiros republicanos disseram que Romney não deveria enfatizar esse perfil, e as pesquisas indicam que a única coisa que o eleitor americano sabe sobre ele é que é rico. Mas, a julgar pelo discurso na convenção, o candidato colocará seu desempenho no mundo das finanças como aquilo que o distingue de Obama. Será o embate entre o tecnocrata eficiente Romney contra o carismático incompetente Obama, como sugeriu o republicano.

Romney ironizou o adversário, dizendo que Obama prometera "baixar o nível dos oceanos" e "curar o planeta", enquanto ele está mais preocupado em ajudar os americanos a sair da crise. Obama nunca disse tal despautério, embora, em favor do Romney, se possa lembrar que o democrata tratou de espalhar a sensação de que sua presidência estava fadada a fazer história. Contudo, Romney procurou não maltratar os eleitores que escolheram Obama em 2008, ao dizer que a excitação em torno do então candidato era compreensível. No entanto, disse ele, a decepção, quatro anos depois, é equivalente àquele entusiasmo. É uma estratégia inteligente, pois não trata quem votou em Obama como boboca, e também cuidadosa, considerando-se que mesmo muitos dos descontentes com o atual governo ainda gostam do presidente. O republicano então disse que os eleitores não precisam se sentir culpados se decidirem não votar em Obama desta vez.

Romney anunciou ter um plano para tirar o país do buraco e criar 12 milhões de empregos, o que deixa Obama com o desafio de apresentar o dele na semana que vem, na convenção democrata. O problema é que, na verdade, nem Romney tem algo que se possa chamar de "plano", ainda mais com uma meta tão impressionante, dadas as atuais condições. Quando muito, Romney disse que fará "algo" contra a crise e apresentou uma série de intenções, como melhorar a educação, ampliar o comércio, reduzir o déficit e, claro, cortar impostos. Nada disso terá o efeito de criar empregos imediatamente, como dá a entender o republicano. No entanto, a falta de detalhes de suas ideias e mesmo sua improvável exequibilidade não são importantes, considerando-se que, no palanque, o que interessa é eletrizar o eleitor. Para isso, sua pergunta aos americanos, imitando Ronald Reagan quando derrotou o presidente democrata Jimmy Carter em 1980, é muito mais poderosa: "Você está melhor hoje do que há quatro anos?". Nem Obama é capaz de responder "sim".

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