A família, o trabalho, a festa

No domingo dia 3 de junho foi concluído, em Milão, na Itália, o 7.º Encontro Mundial das Famílias, com a missa celebrada pelo papa Bento XVI diante de mais de 1 milhão de pessoas. A série desses encontros foi iniciada em 1994, em Roma, pelo papa João Paulo II, com o objetivo de trazer novamente a família para o centro das reflexões da sociedade e da própria Igreja Católica. Penso que esse objetivo tenha sido mais uma vez alcançado amplamente.

DOM ODILO P. SCHERER, cardeal-arcebispo de São Paulo, O Estado de S.Paulo

09 Junho 2012 | 03h05

O tema Família: o Trabalho e a Festa é de indiscutível atualidade e o evento contou com a participação intensa de milhares de casais do mundo inteiro, além de estudiosos das temáticas familiares, representantes da hierarquia da Igreja e do próprio papa Bento XVI. Tratando-se de uma iniciativa da Igreja, sob a responsabilidade do Pontifício Conselho da Família e da Arquidiocese de Milão, o tema pode ter surpreendido, por não enfocar uma questão especificamente religiosa ou moral. Acontece que a família é, antes de tudo, uma realidade humana, social e economicamente significativa. E o propósito era falar da família a partir da sua fundamentação antropológica e das relações interpessoais.

Trabalho e festa são essenciais à família. A ausência de um emprego ou o trabalho excessivo tornam difícil a formação e a sustentabilidade da família. Quando as relações familiares e o casamento são postos em segundo plano, diante da pressão econômica, torna-se necessário parar, para avaliar e redefinir prioridades.

Também a reflexão sobre a festa, no contexto das questões familiares, é muito significativa. Festa significa encontro de pessoas, gratuidade, partilha, alegria, esperança, vida... A festa tem um significado antropológico importante e aponta, em última análise, para a razão da existência da família e da própria vida humana. Podemos afirmar, com certeza, que a motivação para constituir família não é o cultivo da tristeza, da dor, de pesadelos e frustrações, mas o contrário de tudo isso: a alegria, a felicidade, a festa. Embora a vida em família também inclua dor, cruz e frustrações, como tudo o que é deste mundo, vale afirmar que a sua inspiração essencial é a felicidade, a alegria do convívio, a doação da vida, o amor, a festa. Na concretização dessas aspirações é que as famílias encontram a fonte de novas energias e esperanças para a vida. Não deixa de ser significativo o fato de que, no cristianismo, a felicidade e a vida bem-aventurada são descritas com as imagens e a linguagem das bodas, do convívio familiar, do banquete de irmãos, da festa...

Talvez alguém se pergunte: como falar em festa, quando tantas famílias enfrentam cada dia a crua realidade da doença, dos conflitos e da pobreza? É inegável que muitas famílias vivem diariamente situações dramáticas e precisam ser ajudadas a superá-las, mediante ações concretas de solidariedade e ajuda fraterna. Também é preciso evitar a projeção de uma felicidade irreal para a família, realizável apenas na abundância de tudo, na ausência de qualquer dor ou problema. Toda família enfrenta algum tipo de problema e precisa fazer as contas com suas limitações naturais. Mas isso não impede a valorização das alegrias próprias da vida conjugal, do convívio familiar, dos momentos marcantes, como o nascimento de um filho, aniversários, refeições em comum, o perdão dado e recebido, o descanso, o encontro com amigos e parentes... Coisas assim iluminam a vida e reacendem a esperança também lá onde parece haver apenas motivos de tristeza. Na festa renascem as aspirações mais genuínas e profundas do coração humano, feito para a alegria e a felicidade.

Muitos se perguntam se ainda há um futuro para a família. E qual futuro. O encontro tratou com realismo as situações novas que a família contemporânea enfrenta: o maior senso de autonomia das pessoas, em particular da mulher; a pressão sobre o padrão tradicional de família e a tentativa de reconfigurar o próprio conceito e identidade da família; a diluição do papel educativo e até da responsabilidade dos pais em relação aos filhos; a progressiva mudança dos costumes e de alguns parâmetros éticos da vivência da sexualidade; enfim, a pressão determinante do fator econômico... Tudo isso poderia levar a pensar que a família dificilmente vai conseguir sair da crise em que se encontra atualmente.

Há, no entanto, esperança. Nas reflexões do encontro de Milão ficou claro que, apesar de tudo, a família continua sendo uma grande "reserva de humanidade" e tem muita capacidade e energia para contribuir para o futuro da sociedade. Os discursos alarmistas e negativos sobre a família não devem apagar a esperança; há muitos jovens querendo casar, formar família estável e ter filhos, embora estejam bem conscientes das dificuldades atuais. Isso foi confirmado por uma pesquisa recente entre jovens universitários de Florença. E a Igreja manifestou, mais uma vez, que acredita no futuro da família e a promove, incentiva e defende.

Houve também sinalizações para o mundo político: que a família seja reconhecida como um sujeito social, econômico e político importante; que ela não seja abandonada, como um barco à deriva, à sua própria sorte. Ao contrário, que ela seja amparada, protegida e promovida com legislações adequadas; e a família natural, que resulta da união de um homem e de uma mulher, veja devidamente reconhecido e apoiado o seu papel social e humano insubstituível.

Numerosos problemas humanos e sociais, que acabam onerando a sociedade como um todo e o próprio Estado, poderiam ser evitados, ou melhor, solucionados, se houvesse maior atenção política em relação à família. Uma sociedade que descuida da família descuida de suas próprias bases.

O próximo Encontro Mundial das Famílias ficou agendado para 2015, na cidade da Filadélfia, nos Estados Unidos.

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