A FAO premia o desastre

Acordar cedo para entrar em fila é parte de uma nova profissão na Venezuela, um país marcado pela escassez de remédios, alimentos, produtos de higiene e muitos outros bens de consumo. Os profissionais da fila compram e revendem qualquer produto recém-chegado ao varejo – normalmente com preços tabelados, como leite, café, massas, farinhas, papel higiênico e sabonetes. Esses profissionais são chamados de “bacacheros”, nome derivado de bacacho, formiga tanajura. Pois o governo venezuelano acaba de ser premiado pela FAO, a agência das Nações Unidas para a alimentação e a agricultura, por suas vitórias no combate à fome. O prêmio foi entregue pelo diretor-geral da instituição, o brasileiro José Graziano da Silva, recém-reeleito para o posto. Levado para o governo em 2003, pelo presidente Luiz Inácio da Silva, Graziano deixou em janeiro do ano seguinte o Ministério Extraordinário de Segurança Alimentar e Combate à Fome, virou assessor especial da Presidência e em 2006 ingressou nos quadros da FAO.

O Estado de S. Paulo

17 Junho 2015 | 03h00

A maioria dos consumidores venezuelanos teve poucos motivos para festejar o prêmio. Além das filas de sempre, outros assuntos chamaram sua atenção nos dias seguintes – por exemplo, a paralisação de três fábricas processadoras de trigo, por falta de matéria-prima. A federação dos trabalhadores do setor denunciou a parada. Notícias como essa têm sido frequentes. Apesar de sua enorme reserva de petróleo – uma das maiores do mundo –, a Venezuela enfrenta escassez de dólares, um problema grave mesmo antes da baixa dos preços de exportação. A moeda para importação é racionada e muitas vezes distribuída de acordo com critérios políticos. Indústrias e empresas comerciais têm paralisado ou reduzido atividades por falta de matérias-primas, componentes e, em muitos casos, bens finais.

As façanhas econômicas do governo bolivariano são visíveis nos principais dados macroeconômicos. O Produto Interno Bruto (PIB) diminuiu 4% em 2014. Deve encolher mais 7% neste ano e ainda 4% em 2016, prevê o Fundo Monetário Internacional (FMI). Os preços ao consumidor subiram 68,5% no ano passado e a alta se acelera. As estimativas do FMI apontam aumentos de 94,9% em 2015 e 78,4% em 2016 – números acumulados até dezembro. Em prazo mais longo, as perspectivas continuam muito ruins. Em 2020, o crescimento econômico será nulo e a inflação ainda passará de 75%. As projeções do Banco Mundial são diferentes, mas de nenhum modo animadoras.

Bastam os números da inflação para desmentir qualquer julgamento positivo sobre as condições de consumo e sobre a redução da pobreza. Qualquer avanço conseguido em anos anteriores seria liquidado rapidamente pela desenfreada alta de preços. Como preservar ganho social, quando o custo de vida sobe tão velozmente e a crise econômica paralisa empresas e destrói empregos? Em 2013, quando a variação do PIB ainda foi positiva, o crescimento ficou em apenas 1,3%.

A política de redistribuição iniciada pelo presidente Hugo Chávez produziu algum efeito enquanto havia dinheiro do petróleo para gastar. Esse dinheiro foi gasto dentro e fora do país. O populismo para uso interno foi complementado por uma dispendiosa diplomacia destinada à consolidação de um espaço bolivariano. Cuba foi um dos países beneficiários dessa política. Sem investimentos e sem um mínimo de prudência e de competência na política econômica, o dinheiro acabou e a crise foi acelerada, nos últimos dois anos, pela redução dos preços do petróleo.

O intervencionismo, o autoritarismo, o controle de preços e o manejo político dos dólares explicam a maior parte do desastre. No começo do ano, o governo de Maduro anunciou a instalação de sistemas biométricos de identificação em supermercados, para limitar as compras e impedir a formação de estoques. As consequências desses desvarios aparecem nas filas de cada dia, no comércio paralelo, na inflação desatada e na paralisia econômica. Restam, a favor da gestão bolivariana, os aplausos do governo do PT e do petista diretor da FAO.

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