A farda prevalece no Egito

Às vésperas de completar três anos, a revolução liberal egípcia, que não precisou mais de 18 dias para derrubar a ditadura de três décadas do ex-general Hosni Mubarak, está de volta à estaca zero. Com a agravante de que os jovens ativistas de classe média que importaram da Tunísia a Primavera Árabe perderam a fé - e, não raro, a liberdade. Converteu-se em miragem a transformação democrática que lhes parecia ao alcance da mão na vertigem das espontâneas manifestações de massa que se sucediam na Praça Tahrir, no centro do Cairo.

O Estado de S.Paulo

18 Janeiro 2014 | 02h05

As suas bandeiras progressistas, da defesa dos direitos humanos à modernização da economia, foram gradativamente empurradas para o fundo do palco pelos dois atores políticos que de fato contam no país e se odeiam à morte: os islâmicos da Irmandade Muçulmana e as Forças Armadas que desde os anos 1950 controlam o Estado, assistidos pela vasta burocracia com quem formam o chamado Egito profundo. Foram os militares, afinal, que depuseram Mubarak, colocando na chefia do governo o marechal Mohamed Hussein Tantawi, comandante-chefe do Conselho Supremo das Forças Armadas.

Nesses três anos o país não conheceu nem a estabilidade política, nem as liberdades e garantias individuais, nem a recuperação econômica. Apenas arreganhos autoritários, farsas judiciais, polarizações sangrentas, combates de rua, atos terroristas - e um golpe de Estado: em julho de 2013, em seguida a uma onda de protestos ainda mais forte do que a de janeiro de 2011, o Exército derrubou o primeiro presidente da história egípcia sufragado em eleições livres e limpas, Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana. Empossado em junho do ano anterior, ele pôs em prática uma agenda rejeitada pela maioria da sociedade, incluindo uma parcela de seus eleitores, por embutir o germe de um Estado teocrático.

Além disso, ele se outorgou, por decreto, poderes extraordinários, insuscetíveis de contestação judicial. Por fim, em dezembro de 2012, conseguiu aprovar em plebiscito, com escasso índice de comparecimento, um projeto de Constituição preparado por uma comissão dominada pelos islamitas e que os aiatolás do Irã aplaudiriam com entusiasmo. Os egípcios já tinham sido chamados às urnas com a mesma finalidade, às vésperas do segundo turno do pleito que daria a vitória a Morsi. O que se aprovou, à época, era uma proposta de Carta provisória, redigida por juristas fiéis a Tantawi e seus camaradas para tolher os poderes do futuro presidente.

Mesmo depois de sua posse, os militares conservariam a prerrogativa de promulgar leis, elaborar o Orçamento e declarar guerra. Excluídos os liberais - e por falta de alternativas - os egípcios temerosos da islamização de sua terra deram às Forças Armadas a primazia nas decisões cruciais. Esta semana confirmaram o voto anterior, aprovando a nova Constituição proposta para o Egito pós-Morsi. Foi, a rigor, um tira-teima entre os militares e os radicais religiosos - e os primeiros levaram a melhor. De fato, apenas 33% dos eleitores haviam comparecido ao plebiscito anterior; destes, 64% deram o sim à Carta de tintas fundamentalistas.

Agora, o comparecimento chegou a 38%, dos quais 95% votaram como os militares queriam - depois de uma campanha marcada pela violência e a intimidação, em que se engajaram até os serviços de propaganda do Exército. Em resumo, no plebiscito de Morsi votaram os seus partidários e os demais se abstiveram; no desta semana, votaram - e com mais convicção - os simpatizantes do partido militar, ao passo que os opositores entregaram os pontos. Para os generais, o jogo está feito. O resultado como que antecipa o desfecho da nova eleição presidencial, que poderá ocorrer já em abril próximo.

O seu candidato será o atual ministro da Defesa, general Abdul Fattah el-Sisi, que liderou o golpe contra Morsi (por sinal, preso desde então com milhares de correligionários). O mandato será de quatro anos com uma reeleição. A Irmandade Muçulmana e outros grupos religiosos, banidos da política, não poderão apresentar candidatos. É a volta, com outro nome, da autocracia fardada de Mubarak.

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