A farsa da ‘repactuação’

A arte de manipular as palavras com o objetivo de escamotear, engabelar, falsear, dissimular, dourar a pílula, enganar os incautos, enfim, é um recurso a que os políticos tanto mais recorrem quanto maior é sua falta de escrúpulos ou a necessidade de se livrar de apertos. Em situações-limite, essa capacidade de vender gato por lebre pode extrapolar as fronteiras da plausibilidade, em explícita demonstração de caradurismo do artista. Foi o que se permitiu o ministro Jaques Wagner, chefe de Gabinete da Presidência da República, na terça-feira passada, ao explicar a posição do governo diante da saída do PMDB de sua base de sustentação. Ignorando o fato de que dias antes Dilma Rousseff havia declarado que “queria muito” manter a aliança com os peemedebistas, Wagner tentou minimizar a importância do ocorrido e garantiu que a notícia do rompimento chegava “em boa hora”, porque abria para o governo a oportunidade de “repactuar a relação” com seus aliados. Com os que sobrarem, faltou acrescentar.

O Estado de S.Paulo

31 Março 2016 | 03h00

“Repactuar a relação”, em português claro, significa concentrar a ação política do governo no varejo do toma lá dá cá com os parlamentares que aceitarem o risco de se beneficiarem de uma sinecura com prazo de validade certamente muito curto. A tarefa dos governistas é árdua tanto pela urgência como por sua amplitude, já que teoricamente, com o desembarque do PMDB, há cerca de 600 cargos de primeiro, segundo e terceiro escalões a serem “repactuados”. O objetivo é garantir, no mínimo, cerca de 80 votos que o Planalto julga necessários para, somados aos outros 100 de que julga já dispor, obter os 172 necessários para barrar o processo de impeachment na Câmara dos Deputados.

A absoluta prioridade dessa “repactuação” é demonstrada por alguns fatos concretos, como a decisão de Dilma de cancelar a viagem que faria hoje aos Estados Unidos para participar da Cúpula Sobre Segurança Nuclear da ONU. A presidente permanecerá em Brasília para poder sacramentar alguns acordos, mas também para evitar que a vacância temporária da Presidência da República provoque a constrangedora situação de a chefia do governo ser ocupada, por algumas horas que seja, pelo vice-presidente que também é o chefe do partido que era o maior aliado do Planalto e agora se tornou o potencial beneficiário do impeachment de Dilma.

“Repactuar” implicará também – e principalmente – substituir os ministros peemedebistas, pelo menos quatro dos sete, que em função do rompimento do partido com o governo entregarão seus cargos. Essa movimentação, a propósito, fornece um bom exemplo do nível de qualidade, pelo menos do ponto de vista ético, dos políticos que governam o País. A partir do momento em que um partido rompe sua aliança com o governo, o natural e óbvio é que os filiados que integram os quadros da administração pública em nome da legenda, principalmente no primeiro escalão, renunciem imediatamente. É uma questão elementar de ética.

Henrique Eduardo Alves, estreitamente ligado à cúpula dirigente do PMDB, não esperou a decisão do Diretório Nacional para entregar o cargo de ministro do Turismo. Deverão fazer o mesmo, provavelmente ainda esta semana, mais três ministros que pediram um tempo apenas para ultimar providências que consideram importantes: Eduardo Braga, de Minas e Energia; Helder Barbalho, dos Portos; e Mauro Lopes, da Aviação Civil. Outros três já declararam que permanecerão onde estão: Kátia Abreu, da Agricultura – que é amiga de Dilma, sempre foi considerada escolha pessoal da presidente e admite que está pensando em mudar de partido –; Marcelo Castro, da Saúde; e Celso Pansera, de Ciência e Tecnologia.

O desempenho opaco dos dois últimos, integrantes do chamado baixo clero da Câmara, demonstra que jamais teriam sido alçados à condição de ministros de Estado se não fosse pela imposição de acordos fechados para atender a interesses de grupos políticos. Ambos sabem disso e não abrem mão de desfrutar, nem que seja por mais umas poucas semanas, as prebendas dos cargos que, por obra do acaso, tiveram a sorte de assumir. São produtos legítimos do “presidencialismo de coalizão” à moda de Lula.

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