A força do PCC

A operação da Polícia Civil paulista, conduzida pelo Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), que prendeu 40 pessoas acusadas de serem ligadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC), mostra que essa organização criminosa, que age dentro e fora dos presídios, está mais forte do que nunca. Isso vem confirmar a justeza do trabalho feito pelo Ministério Público Estadual (MPE) e divulgado em outubro do ano passado, depois de três anos de investigações, que concluiu que o PCC vem crescendo continuamente, já se espalhou pela maioria dos Estados e chega a faturar R$ 120 milhões por ano.

O Estado de S.Paulo

17 Julho 2014 | 02h04

Falta cumprir ainda 3 dos 43 três mandados de prisão expedidos pela Justiça. Dois são de acusados que se encontram fora do País, de onde ajudam a controlar o tráfico de droga do PCC. Um deles, Wilson José Lima de Oliveira, o Neno, está em Orlando, nos Estados Unidos. Já Fabiano Alves de Souza, o Paca, age no Paraguai. Mais 47 mandados de busca permitiram apreender 100 quilos de cocaína e crack e 43 de maconha, armas e farta documentação. Uma análise preliminar desse material mostra o alto nível de organização do PCC e como funciona o esquema de tráfico de drogas - talvez o ramo mais lucrativo de seus negócios ilegais.

A distribuição da droga, que vem principalmente da Bolívia, começa na Cidade Tiradentes, na zona leste, e em bairros da zona sul, e de lá é levada, em pequenas quantidades, para o restante da cidade. Só essa parte do tráfico na capital paulista rende, de acordo com os dados colhidos, cerca de R$ 5 milhões por mês.

Um dos principais objetivos da operação era chegar aos elementos da cúpula, ou próximos deles, que participam do planejamento das ações criminosas e das operações financeiras do PCC. Segundo o Deic, dois dos presos fazem parte do alto escalão da organização criminosa - um seria uma espécie de "diretor operacional" para as ações realizadas fora dos presídios e o outro oferecia local seguro para as reuniões do grupo, uma loja de carros usados de sua propriedade, na zona leste.

As informações colhidas têm uma dupla utilidade para a polícia - conhecer melhor como funciona a administração do PCC e como ele opera a distribuição de droga, em especial na capital e na Grande São Paulo, que ao que tudo indica são o principal centro dos seus negócios. Isso deve facilitar o combate ao tráfico, e as próximas ações da polícia nesse sentido vão indicar se ela está preparada para tirar todo o proveito possível dessa investigação que conduziu tão bem.

Os documentos apreendidos levantam também uma suspeita altamente inquietante - a de que alguns policiais civis e militares têm ligação com o tráfico do PCC. Segundo o secretário de Segurança, Fernando Grella Vieira, as Corregedorias das Polícias Civil e Militar vão investigar o grau de envolvimento deles com o crime. A cooptação de policiais por organizações criminosas é bem conhecida. O fato em si, portanto, não surpreende. O que distingue as polícias eficientes e vigilantes das demais é a capacidade que elas têm de identificar suas ovelhas negras e puni-las exemplarmente. É o que se espera que a polícia paulista faça.

O combate sem trégua ao PCC deve ser uma das prioridades do setor de segurança pública, que inclui tanto o aparelho policial como a administração penitenciária. Isso porque são várias as razões que atestam a natureza particularmente preocupante dessa organização criminosa. A começar pelo fato de que ela atua ao mesmo tempo dentro e fora dos presídios. Segundo o referido trabalho do MPE, o PCC controla 90% dos presídios paulistas.

Como se isso não bastasse, ele já está presente na maioria dos Estados (em 22 deles) e em 2 países vizinhos (Bolívia e Paraguai), locais de produção e escoamento das drogas, e - sabe-se agora - também nos Estados Unidos. Ou se faz um esforço muito maior para desarticular o PCC ou ele tem tudo para se tornar um verdadeiro pesadelo para a segurança pública. E esse, como se vê, não é mais um problema apenas de São Paulo.

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