A força do PMDB e PSDB

O recente jantar, em Brasília, entre lideranças do PMDB e do PSDB, não foi um evento isolado. Com frequência os dois partidos ensaiam conversas e tratativas. Tal aproximação é, sem dúvida, motivo de otimismo, tendo em vista que os dois partidos juntos podem dar passos muito concretos – e eficazes – para tirar o Brasil da crise.

O Estado de S.Paulo

12 Março 2016 | 03h00

É certo que os dois partidos têm problemas complexos e multifacetados. O PMDB, por exemplo, tem uma composição plural, reunindo políticos com tendências e posições díspares. O partido está longe de ser uma força compacta e unida. É uma legenda capaz de apresentar uma agenda econômica bem próxima da proposta pelo PSDB e, ao mesmo tempo, ter entre seus pares políticos mais governistas que os mais empedernidos petistas. Já esteve no governo, sendo ao mesmo tempo oposição e vice-versa, de modo que o fato de o partido ocupar várias pastas no Ministério de Dilma não significa muita coisa.

Ainda que seja possível vislumbrar um pouco mais de unidade programática no PSDB que no PMDB, é preciso reconhecer que o partido dos tucanos apresenta a peculiar característica de ter mais caciques do que índios. Isso lhe confere um modo todo especial de proceder, às vezes incompreensível para considerável parcela da sociedade que vê o partido com bons olhos, ainda que não pactue plena e confortavelmente com seu modus operandi. Assim, não é raro que o PSDB deixe de contar com importantes forças sociais que, atuasse de outro modo como partido, estariam de bom grado ao seu lado nos inúmeros desafios a serem enfrentados.

As deficiências encontradas nos dois partidos – que sem muito drama podem ser qualificadas como graves e persistentes – não retiram, no entanto, a capacidade de ação dessas duas grandes legendas. Apesar de todos os pesares, se suas lideranças estiverem dispostas, os dois partidos têm capacidade e força política para levar adiante o impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Motivos jurídicos para o impeachment não faltam. Motivos políticos abundam. Além das graves transgressões à Lei de Responsabilidade Fiscal – é dizer, além de uma comprovada administração ilegal do dinheiro público –, recentemente vieram à tona outras denúncias que são mais que suficientes para tipificação de autoria de crime de responsabilidade pela presidente Dilma Rousseff. Para se chegar ao impeachment falta apenas vontade política – ou seja, falta que PMDB e PSDB a isso se disponham.

É por isso que são alvissareiras as notícias dos encontros das lideranças dos dois partidos. Mas essas notícias mostram que falta a necessária objetividade aos entendimentos – e sem essa objetividade tão própria da política não serão identificados os meios para alcançar os fins almejados.

Em suas conversas, as lideranças dos dois partidos não estão indo diretamente ao único assunto realmente importante nas atuais circunstâncias políticas e econômicas – que é tirar o País da crise com a rapidez compatível com os ritos legais. Conversam e tratam de vários e interessantes temas. Não raro as lideranças dos dois partidos acertam o andamento de alguns projetos de lei de boa lavra, bem pensados e bem planejados. Tudo isso é de extrema utilidade e digno de louvor.

Parece, no entanto, que não se dão conta de que os dois partidos têm força política suficiente para levar a cabo o que a população tanto anseia e a Constituição expressamente prevê – a legítima retirada do ocupante da Presidência da República por crime de responsabilidade.

Longe de configurar qualquer tipo de conspiração, trata-se de assumir a responsabilidade institucional que lhes compete como partidos políticos de porte e força realmente nacionais, dispondo de lideranças capazes de se conectar com os mais variados estratos da sociedade. Não é pouco o que podem fazer. Diante da gravidade da atual crise, já é passada a hora de os dois partidos perceberem que detêm os meios para pôr-lhe cobro. Basta usá-los.

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