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A furtiva invasão russa

O Estado de S.Paulo

30 Agosto 2014 | 02h 04

Se é verdade, como diz o presidente Barack Obama, que "não está no horizonte" uma solução militar para a crise provocada pelo apoio armado da Rússia de Vladimir Putin aos separatistas ucranianos que enfrentam o governo de Kiev no leste do país, é inevitável perguntar quais seriam as alternativas para conter o que já se tornou a maior ameaça à segurança europeia desde a sanguinária guerra de todos contra todos na antiga Iugoslávia nos anos 1990.

A questão exige uma breve viagem no tempo. Em março, depois da anexação da Península da Crimeia à Federação Russa, os Estados Unidos e, a contragosto, a União Europeia impuseram a Moscou um pacote de sanções que não chegaram a fazer cócegas no autocrata do Kremlin, muito menos arranharam a hegemonia política e a popularidade do ex-oficial da KGB soviética, no poder há década e meia, como primeiro-ministro ou presidente.

É certo que, em represália à queda do governo de seu bom interlocutor Viktor Yanukovich, ao cabo de protestos maciços contra a sua recusa a preparar a integração da Ucrânia à União Europeia, Putin instigou o plebiscito que levou, por esmagadora maioria de votos, à reintegração da Crimeia à Rússia, de que fazia parte desde o século 18. Mas é certo também que, com a sua iniciativa, Moscou violou o Memorando de Budapeste, de 1994, que comprometia os signatários - além da Rússia, os Estados Unidos e o Reino Unido - com a independência, soberania e integridade territorial ucraniana em troca da remoção das armas nucleares ali estocadas pela URSS.

O êxito de Putin, a custo irrisório, o animou a dar gás - respaldo político, armas e apoio logístico - aos ativistas filorrussos da região industrial de Donbass, concentrados em cidades como Donetsk e Lugansk. Sem o que eles não teriam podido abater no espaço aéreo ucraniano, em julho, o Boeing da Malaysia Airlines que transportava 298 pessoas de Amsterdã a Kuala Lumpur, confundido com um avião militar inimigo. Nova e mais adstringente rodada de sanções afetou as finanças russas, mas não a disposição de Putin de continuar dando suporte militar aos bandos insurgentes, engrossando os seus quadros com "voluntários" e recursos bélicos.

A intervenção se acentuou desde então, à medida que as Forças Armadas ucranianas passaram a acuar os separatistas - que, sem os russos, não seriam páreo para elas. Nessa escalada, como acabam de revelar imagens de satélite divulgadas pela Otan, a aliança militar ocidental, Moscou despachou para o vizinho país, entre julho e a semana passada, mais de mil soldados e grande quantidade de moderno armamento pesado. O destino aparente do comboio era Krasnodon, a 49 quilômetros de Lugansk. Ao mesmo tempo, abrindo uma segunda frente de combate, forças russas participaram ativamente da tomada da cidade portuária de Novoazovsk.

Trata-se de uma invasão - furtiva, dissimulada, desmentida, mas ainda assim invasão -, embora o presidente Obama evite o termo para não agravar as tensões. Já o brigadeiro holandês Nico Tak, do Alto Comando da Otan, dispensou eufemismos ao dizer que a invasão visa a aliviar a pressão sobre os separatistas e a "congelar o conflito". Ou seja, podendo conviver com uma Ucrânia inimiga, mas não inimiga e forte, na avaliação de uma fonte ligada ao establishment militar russo, Putin pretende submeter o sudeste ucraniano a um quadro de instabilidade duradoura - e onerosa. Isso não seria um fim, mas um meio.

Putin já declarou que seu objetivo é forçar o governo de Kiev a federalizar a nação. Com o fim do Estado unitário, as áreas de presença russófona fatalmente se transformariam em protetorados de Moscou. Mas, como disse Obama em relação a uma saída militar para o confronto, essa hipótese tampouco parece "estar no horizonte". A Ucrânia é grande demais e estratégica demais para o Ocidente aceitar que Putin estabeleça em um de seus mais ricos espaços uma nova Ossétia do Sul, que a Rússia apartou da Geórgia, depois da invasão de 2008. A questão é como impedir que a história se repita.

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