A grandeza de Mandela

Quem fosse negro na África do Sul durante os terríveis anos do apartheid teria todos os motivos para aderir à violência como única resposta possível ao regime racista. O ódio irredutível era o produto natural do tratamento desumano que os brancos, pouco mais de 10% da população, reservavam à maioria negra. Nelson Mandela, igualmente vítima dessa violência, encarcerado numa prisão abjeta, também aderira à luta armada para "empurrar os brancos ao mar". Mas foi em seus anos de reclusão, quando o único diálogo possível era consigo mesmo, que o guerrilheiro, apenas mais um entre tantos, deu lugar ao estadista, com presença assegurada entre os maiores da história.

O Estado de S.Paulo

07 Dezembro 2013 | 02h08

Mandela, que morreu na última quinta-feira, aos 95 anos, era um pragmático. Na autobiografia Nelson Mandela - Longa Caminhada até a Liberdade, ele diz que uma de suas leituras favoritas no cárcere havia sido Guerra e Paz, de Tolstoi. Das centenas de personagens do livro, a que mais lhe inspirou era o marechal Mikhail Kutuzov, o comandante militar russo que repeliu as tropas de Napoleão em 1812. Após severas perdas na batalha por Moscou, Kutuzov retirou suas tropas para reorganizá-las e atacar as forças de Napoleão quando a situação lhe fosse mais favorável. A leitura que Mandela fez dessa estratégia bem-sucedida ajudou a pautar seu comportamento dali em diante: o importante não era tentar infligir danos ao regime segregacionista sul-africano por meio do enfrentamento armado, em que os negros estavam sempre em desvantagem; o importante era superar o apartheid definitivamente, oferecendo ao país a reconciliação.

O primeiro entrave dessa estratégia não foram os brancos. Mandela começou a construir o futuro da África do Sul livre quando se dedicou a superar as desconfianças dos próprios negros, em especial de seus companheiros de combate. Não foi nada fácil convencê-los de que a construção do diálogo era uma possibilidade real e o caminho mais curto para a liberdade.

Paciente e determinado, Mandela modulou seu discurso para mostrar que não era um sonhador ingênuo. Mesmo defendendo a negociação como princípio, Mandela deixou claro que não era um pacifista radical como Gandhi e sabia que a violência, em certas circunstâncias, era necessária. "Eu via a não violência no modelo de Gandhi não como um princípio inviolável, mas como uma tática a ser utilizada à medida que a situação exigia", escreveu Mandela em sua biografia. Em uma entrevista em 1984, quando ainda estava preso, Mandela explicou seu ponto fazendo um paralelo com Cristo: "Até mesmo Cristo, quando foi deixado sem alternativas, usou a força para expulsar os vendilhões do templo. Ele não era um homem violento, mas não teve escolha senão usar a força contra o mal".

Ao mesmo tempo que admitia a violência como legítima, Mandela costurou, de dentro da prisão, onde ficou de 1964 a 1990, a transição da África do Sul para a democracia multirracial. Ao tomar chá com seus algozes, como fazia frequentemente com os líderes do regime racista sul-africano, ele mostrou que era possível sonhar com a libertação dos negros sem que isso significasse a eliminação da minoria branca que governava o país - e que acreditava, desde 1948, que o apartheid derivava de direito divino.

O comportamento delinquente do regime racista contribuiu também para que o mundo se mobilizasse contra o apartheid, em especial a partir de 1976, quando a polícia massacrou homens, mulheres e crianças no chamado Levante de Soweto. Houve campanhas para que Mandela fosse libertado, e quando enfim isso aconteceu, em 1990, o homem que emergiu da prisão não tinha uma única palavra de rancor a dizer. Ao contrário: pediu aos negros que abandonassem as armas.

A pacificação da África do Sul só foi possível porque Mandela era a garantia de que os brancos teriam lugar no novo país. "O opressor tem de ser libertado tanto quanto o oprimido", escreveu ele. "Um homem que tira a liberdade de outro é um prisioneiro do ódio, está preso atrás das grades do preconceito e da pobreza de espírito."

Mandela tornou-se presidente em 1994, completou seu mandato em 1999 e se recusou a tentar a reeleição. Preferiu retirar-se para a história.

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