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A greve de Libra pega a maré

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A greve dos petroleiros contra o leilão do Campo de Libra, na Bacia de Santos - a primeira licitação de área do pré-sal - não é um raio em céu azul no Brasil de hoje. Nem a sua anunciada manifestação diante do hotel carioca onde o evento se realizará segunda-feira é um caso especial na sequência de atentados ao direito alheio, em protestos contra tudo e nada ou em nome de demandas que vão do razoável ao delirante, sem esquecer daquelas concebidas às pressas para aproveitar a onda.

Precavido, o governo do Rio pediu socorro ao Exército para prevenir novas violências dos vândalos que têm feito o diabo nas cidades brasileiras e não gostariam de perder uma ocasião como essa. Com a PM fluminense confessadamente exausta depois de 90 dias enfrentando a bandidagem dos black blocs, a presidente Dilma Rousseff invocou a Garantia de Lei e Ordem (GLO) que autoriza a força militar a policiar de forma "esporádica e temporária" locais sujeitos a distúrbios.

Por enquanto, os dirigentes da Federação Única dos Petroleiros (FUP) se mostram mais aptos a prejudicar a mesma Petrobrás que gostariam que monopolizasse o pré-sal do que em justificar a oposição às regras da exploração dessa frente pioneira no setor. Na quinta-feira, a FUP conseguiu parar o trabalho em 15 plataformas na Bacia de Campos (que responde por 80% da produção nacional). Em 24 outras, a Petrobrás foi obrigada a mobilizar equipes de contingência para manter as operações. Refinarias e centros de distribuição em 16 Estados também foram afetados.

O diretor da FUP, Francisco José de Oliveira, alega que os R$ 15 bilhões a serem recebidos pela União do consórcio vencedor de Libra, a título de "bônus da assinatura", não passam de uma "gorjeta". Trata-se de uma enganação. Ele finge ignorar que isso é apenas o começo do negócio. No sistema de partilha adotado, a propriedade do óleo extraído é da União, que devolverá ao grupo vitorioso uma porcentagem do produto. Arrematará o campo quem oferecer a maior parcela de óleo à União - nunca inferior a 41,65% da produção. E todos os consórcios terão a Petrobrás como sócia. Aliás, a União é que vai arcar com os 30% que a estatal terá de investir na operação.

O conto da "privatização" de Libra só é verdade para aqueles cuja inclinação para o ativismo é inversamente proporcional ao grau de informação sobre o que os leva às ruas e a atacar instalações públicas. É, notoriamente, o caso dos estudantes que tomaram a sede da Reitoria da USP e costumam terceirizar o quebra-quebra no câmpus a marginais das favelas próximas. Mesmo os mais comedidos entre eles apenas conseguem balbuciar generalidades sobre o que precisaria mudar no regimento da instituição, além do voto risonho e franco para a escolha do reitor.

O quadro é desanimador. Na semana passada, um juiz negou o pedido de reintegração de posse da Reitoria (cujas portas haviam sido arrebentadas a machadadas), culpando o titular da instituição por sua recusa a "iniciar um debate democrático" e considerando de "pequena monta" os danos causados ao edifício. Acusou ainda a USP de fazer "uma opção clara pelo uso da força" por ter recorrido à Justiça. Dias atrás, um desembargador deu 60 dias para os alunos desocuparem a Reitoria, pois ela "pode funcionar provisoriamente em outro local".

A leniência com a ilegalidade parece estar criando uma versão nativa da "novilíngua" do escritor George Orwell (1903-1950). Pessoas cuja formação permite que delas se cobre um mínimo de respeito à lógica, se o decoro intelectual for de todo impossível, falam com a maior naturalidade em "invasão pacífica". A contradição em termos é usada para inocentar os que exercem perversamente o direito à cidadania e às liberdades civis, "entrando sem bater", como diria o Barão de Itararé, em repartições de governo.

Na mesma linha, porém ainda pior, há quem classifique de "simbólica" a violência dos black blocs, como se ela transcorresse no rarefeito mundo das ideias, não destruísse patrimônio material nem ferisse eventualmente pessoas de carne e osso que tenham tido a desfortuna de estar no lugar errado na hora errada. Já a provocada violência do Estado nunca será simbólica - e sempre será "excessiva".

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