Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Opinião

Opinião » A guerra de Maduro

Opinião

A guerra de Maduro

Presidente da Venezuela adota medidas para fortalecer ainda mais seu poder discricionário, inclusive com o reforço de suas tropas paramilitares, enquanto repete o habitual jogo de cena de fazer propostas de 'diálogo', nas quais há muito a oposição deixou de acreditar

21 Abril 2017 | 03h04

A crise na Venezuela se agrava a cada dia ante a intransigência do regime chavista que nela afundou o país e não dá o menor sinal de estar disposto a negociar seriamente com a oposição para encontrar uma saída pacífica. Ao contrário, além de reprimir violentamente as manifestações contra o governo, que se multiplicam, o presidente Nicolás Maduro adota medidas para fortalecer ainda mais seu poder discricionário, inclusive com o reforço de suas tropas paramilitares, enquanto repete o habitual jogo de cena de fazer propostas de “diálogo”, nas quais há muito a oposição deixou de acreditar.

Foi o que aconteceu com a grande manifestação de quarta-feira passada, da qual participaram dezenas de milhares da pessoas – de todas as classes sociais, mesmo as mais carentes, também desiludidas com o populismo chavista – na capital, Caracas, e em outras cidades. Dois manifestantes morreram, um deles um jovem de 17 anos, atingido por disparo feito por um dos agentes em motocicleta encarregados da repressão, e dezenas ficaram feridos. Outros cinco morreram durante os protestos anteriores. E pelo menos 270 foram presos.

As atitudes de Maduro diante da revolta não deixam dúvida sobre a determinação do regime de não ceder um milímetro sequer. Um dia antes da última manifestação, ele voltou a denunciar em cadeia nacional de televisão – o que já virou hábito – uma tentativa de golpe de Estado da “direita”, insuflado e respaldado pelos Estados Unidos. E organizou uma manifestação para se contrapor à da oposição, quando propôs o seu “diálogo pela paz institucional” e anunciou a criação de uma comissão para preparar o que vai oferecer.

“E depois não digam que não os escutei”, afirmou ameaçadoramente, referindo-se aos líderes oposicionistas reunidos na Mesa da Unidade Democrática (MUD) e já sabendo que sua farsa não será aceita por eles. Todas as ofertas de “diálogo” de Maduro não passaram de mero expediente para ganhar tempo, enquanto preparava novos golpes – como o das decisões do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) que esvaziaram o poder da Assembleia Nacional –, e transmitir a falsa imagem de que é a oposição que é intransigente. Foi o que aconteceu com as negociações mediadas pelo Vaticano, que nunca avançaram.

Mas a decisão mais grave adotada por Maduro foi a de aumentar consideravelmente sua tropa de choque, a Milícia Bolivariana, criada por Hugo Chávez para a “defesa da revolução” que deu na monumental crise política, econômica e social vivida pela Venezuela. O efetivo dessa força paramilitar, hoje estimado em 130 mil homens, passará para 500 mil, armados com fuzis. E rapidamente, ainda este ano, numa demonstração do quanto o regime se sente acuado.

A escalada não para aí. Segundo Maduro, o objetivo é “a organização e treinamento de 1 milhão de milicianos, armados para defender a paz”, em resposta a planos da oposição de promover uma intervenção internacional na Venezuela. Na mesma direção e no mesmo tom foi o ministro da Defesa, Vladimir Padrino, que acusou a oposição de ter uma “agenda criminosa e carregada de ódio, que inclui atos terroristas, distúrbios e saques”.

É a velha e bem conhecida tática de fabricar um adversário violento, de preferência mancomunado com inimigo externo, para apelar ao patriotismo e mobilizar seus simpatizantes, que começam a rarear. Com aquele exército de milicianos, mais o apoio das dóceis Forças Armadas, devidamente expurgadas desde a época de Chávez e seduzida por favores e benesses, não é exagero dizer que Maduro se prepara para uma verdadeira guerra, disposto a esmagar a oposição a ferro e fogo.

A oposição também se mobiliza, mas para resistir à ditadura de fato que impera na Venezuela. E, assim, manifestações levam para as ruas contingentes cada vez maiores, refletindo a revolta crescente da população com o estado de penúria em que se encontra. Dias sombrios esperam a Venezuela.

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.