A guerra síria transborda

A comunidade internacional vem hesitando em intervir diretamente no conflito da Síria porque há o temor, fundamentado, de que tal ação destruiria o pouco que resta de previsibilidade naquela crise e deflagraria uma guerra regional. Mas, com o prolongamento dos combates na Síria, o entorno do país, principalmente na sua fronteira com Turquia e Líbano e, em menor escala, na divisa com Jordânia e Iraque, já pode ser considerado como uma grande zona de guerra. Como a Turquia é parte da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), aliança militar que prevê auxílio coletivo em caso de agressão a um de seus integrantes, não é difícil perceber o tamanho do problema.

O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2012 | 03h07

A fina corda em que se equilibram as forças locais balança perigosamente a cada incidente nessas fronteiras. O mais recente deles foi a morte de cinco civis na Turquia, atingidos por tiros de artilharia disparados do lado sírio. Não se conhece a autoria dos disparos, mas o episódio gerou uma dura reação turca, que responsabilizou o ditador Bashar Assad. Pressionado por Moscou, que lhe tem servido como escudo diplomático, o governo sírio pediu desculpas pelo bombardeio, que disse ter sido um acidente, mas isso não impediu que a Turquia reagisse atacando alvos na Síria durante dois dias. Além disso, o Parlamento turco autorizou o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan a ampliar a retaliação militar.

Nada disso pode ser tomado por seu valor de face. A resposta militar turca foi localizada e com o emprego de meios limitados. Além disso, o aval do Parlamento para que Erdogan declare guerra é apenas uma maneira de intimidar os sírios. O tom foi seguido pelo premiê, que em discurso advertiu Damasco: "Nós não estamos interessados na guerra, mas também não estamos longe disso. Esta nação chegou aonde está hoje tendo passado por guerras intercontinentais".

O discurso de Erdogan é menos para os sírios e mais para satisfazer o público turco. Cidades do sudeste da Turquia vêm sendo atingidas há bastante tempo por projéteis vindos da Síria, e um avião turco foi derrubado pelas forças leais a Assad em junho. Logo, a resposta de Ancara não diz respeito somente ao último bombardeio, mas a uma longa série de incidentes na fronteira, que irritaram a opinião pública turca e pressionaram o governo a reagir. Ademais, os turcos acreditam que seu governo esteja sendo leniente demais com Assad, enquanto sofre os efeitos colaterais do conflito - a Turquia já teve de abrigar 100 mil refugiados sírios, e o comércio regional, do qual o país tanto depende, está seriamente prejudicado.

Além disso, o governo turco queixa-se de ter sido abandonado pelas forças ocidentais. Em linha com seu projeto de neutralizar concorrentes e ser a grande potência da região, Ancara ajuda abertamente os rebeldes sírios, permitindo que eles recebam armas e abrigo. Mas a Turquia esperava receber apoio dos EUA e se queixa de que, por enquanto, esse suporte tem sido apenas retórico, de modo que o país acabou se expondo ao enfrentar sozinho a Síria - e, por tabela, Irã, Rússia e China, os patrocinadores de Assad. Por esse motivo, embora não tenham nenhuma simpatia pelo ditador sírio - principalmente porque Assad apoia os separatistas curdos na Turquia -, os cidadãos turcos são contrários a uma ação militar unilateral do país contra a Síria, como mostram pesquisas de opinião. Ainda assim, o envolvimento turco na guerra síria já é grande, e, dadas as suas ambições regionais, é difícil saber como a Turquia se comportará daqui em diante.

Seja como for, considerando-se o nível de hostilidade histórica entre os atores dessa crise cada vez mais complexa, é possível antecipar que uma guerra regional seria especialmente brutal. O eventual engajamento da Otan no conflito, em razão de sua solidariedade contratual com a Turquia, seria ainda mais dramático, porque teria como resposta o envolvimento direto do Irã. Esse cenário catastrófico começa a se desenhar com o prolongamento da guerra civil síria, diante da qual a diplomacia internacional se mostra cada vez mais impotente.

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