A herança do carisma

Hoje me arrisco. Temo que os admiradores de Gandhi me rejeitem por lembrar palavras que gostariam de ver enterradas e esquecidas. Vou devagar. Antes de chegar ao líder carismático, traço paralelos entre a economia do Brasil e a da Índia.

Eliana Cardoso,

10 Outubro 2012 | 03h13

A onda de reformas chegou aos dois países no começo da década de 1990, motivada por recorrentes crises externas. Os resultados foram bons. Na Índia, dez anos de crescimento acelerado resultaram em mais crianças na escola, menos analfabetos, menos pobreza rural, mais estradas e cada um de seus habitantes com um celular ao ouvido, apesar da crescente disparidade da renda. No mesmo período, apesar do crescimento menos vigoroso que o da Índia, partindo de uma renda per capita bem mais alta que a do gigante asiático, o Brasil também viu progresso social com menos pobreza. E, ao contrário da Índia, conseguiu reduzir a desigualdade.

O ano de 2012 produziu investidores desanimados, déficit fiscal em alta e piora da conta corrente do balanço de pagamentos na Índia. No Brasil, também. Lá e aqui, ouvimos queixas sobre o governo que mal governa e congela reformas. O Estado indiano culpa os empresários que não investem pela piora dos indicadores. O nosso acusa o Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA). Lá e aqui, como os habitantes do inferno de Dante, ministros empurram para longe de si a responsabilidade dos próprios atos.

Nos dois países, governos estaduais bloqueiam a unificação dos impostos indiretos, com receio de que o poder central não distribua as receitas de forma equitativa. A Índia, mergulhada na corrupção, vê o medo de acusações paralisar os burocratas, que se protegem cruzando os braços. O Brasil lamenta ineficiências administrativas que entravam os investimentos.

Tanto no Brasil como na Índia, a imprensa é livre. O voto, limpo e honesto. Mas as campanhas eleitorais são custosas e sujas. Desvios populistas talvez expliquem como democracias vibrantes podem conviver com enormes disparidades. Calcula-se que 30% da população indiana sobrevive em pobreza abjeta, ao mesmo tempo que (atrás apenas da Rússia) a Índia ocupa o segundo lugar entre os países que têm os maiores números de bilionários no mundo. Parece que a desigualdade indiana se deve (em boa parte) ao sistema de castas. E é triste constatar que Gandhi - líder que ainda hoje inflama a imaginação e a admiração de muitos - sempre defendeu esse sistema.

Treinado como advogado britânico, depois de viver na África do Sul, onde foi importante líder comunitário, Gandhi voltou para a Índia, onde repensou o hinduísmo através do espiritualismo ocidental de sua época, enfatizando ideias como a reencarnação, o aperfeiçoamento pelo ascetismo e a fusão com o divino. Seu objetivo na vida? Alcançar o estado de perfeição em que o ciclo de renascimento chega ao fim e a alma se une a Deus. O caminho para a perfeição? A crucificação da carne. No sexo residia o perigo primeiro para a libertação final. Gandhi misturava o medo cristão do pecado com a fobia hinduísta de poluição. Aos 65 anos, uma ejaculação involuntária virou assunto para um comunicado angustiado ao público. Aos 77, testou a si mesmo dormindo nu com sua sobrinha-neta.

O extremismo de suas convicções não se limitava à cama. Enumerando suas crenças fundamentais, explicou que as máquinas representam um grande pecado. As ferrovias espalham a peste bubônica e aumentam a fome. Hospitais propagam o pecado. O camponês não precisa saber ler, pois o conhecimento das letras o tornaria descontente com sua sorte.

No seu tempo, o caminho da virtude exigia a expulsão da civilização ocidental da Índia e em 1920, usando seus dons excepcionais de energia e organização, Gandhi lançou uma campanha de não cooperação: renúncia de todos indianos às honrarias conferidas pelos britânicos e às posições no serviço público, na polícia e no exército, seguida pelo não pagamento de impostos. A campanha e o boicote à compra de bens estrangeiros eletrizaram o país. E em 1.º/2/1922 Gandhi anunciou que chegara a hora de iniciar o não pagamento de impostos. Quatro dias depois, a polícia de Chauri Chaura (no Estado de Uttar Pradesh) disparou contra manifestantes, matando três deles. A multidão contra-atacou e destruiu o local de refúgio dos policiais. Ao saber do ocorrido, Gandhi declarou um jejum de cinco dias e cancelou o movimento nacional.

Seu desgosto genuíno não parece ter determinado sua decisão, pois ele assumiria a postura contrária em 1942, ao declarar a jornalistas: "Se Deus quer destruir o mundo por meio da violência e me usar como seu instrumento, como posso impedir isso?" Parece que a razão para sua retirada súbita em 1922 estava ligada ao temor de que a revolta popular levasse a uma revolução socialista.

Do lado positivo, não nos podemos esquecer de que a imagem do líder semeou movimentos pacifistas ao redor do mundo e nele Aung San Suu Kyi encontrou inspiração para a revolta não violenta contra a ditadura de Mianmar.

Do lado negativo, precisamos lembrar a posição de Gandhi quanto ao sistema de castas. Embora condenando a ideia dos intocáveis, sempre defendeu e pregou a divisão da sociedade em quatro castas. Acreditando na transmigração e na reencarnação, afirmava que a natureza, sem nenhuma possibilidade de erro, faz as correções necessárias. Um brâmane que se comporta mal reencarna em divisão inferior: "Não há necessidade de ajustes nesta vida".

A bala de um assassino embalsamou Gandhi no papel de mártir e ainda hoje faltam à Índia políticos indianos que desafiem seus ensinamentos e condenem o sistema de castas. Converter um líder carismático em super-herói atrasa reformas benéficas ao progresso. O peronismo, na Argentina, é o exemplo mais próximo de idolatria política. Teremos sorte se o julgamento do mensalão vier a livrar a sociedade brasileira do lulismo.

* PH.D. PELO MIT,  É PROFESSORA TITULAR DA FGV-SÃO PAULO

SITE: WWW.ELIANACARDOSO.COM

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