A indústria ainda fraca

Se depender da produção industrial, o crescimento econômico será novamente muito fraco neste ano, segundo a sondagem divulgada nesta quarta-feira pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). A produção voltou a cair em fevereiro, segundo as empresas cobertas pela pesquisa, mas há pelo menos uma notícia positiva nas primeiras linhas do comunicado: a queda foi menor que a de janeiro e a de fevereiro do ano passado. Os indicadores desse levantamento variam de zero a 100 pontos. Os números abaixo de 50 correspondem a avaliações negativas. O contrário vale para aqueles acima dessa divisória. A evolução da atividade em relação a janeiro ficou, na média, em 48,3 pontos, em território negativo, mas pouco melhor que o registrado no mês anterior. Desde novembro os indicadores estão abaixo de 50 pontos.

O Estado de S.Paulo

31 Março 2014 | 02h04

A maior parte da indústria continua operando com folga, mas no mês passado o uso da capacidade instalada aumentou ligeiramente, de 70% para 72%, e ficou mais próximo da usual. O nível de estoques em relação ao desejado ficou praticamente estável, embora em nível ainda insatisfatório. Esse dado parece combinar com as últimas pesquisas sobre intenção de consumo. Os números têm oscilado, mas em geral apontam um certo arrefecimento da disposição de comprar, depois de anos de forte crescimento das vendas no varejo. O levantamento mais recente, divulgado também na quarta-feira pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), apontou uma elevação de 0,1% em março, depois de quedas de 2,1% em janeiro e 1,7% em fevereiro. O índice de fevereiro, 107,2 pontos, ficou bem abaixo da média histórica, 116,3 pontos. Isso também ocorreu nos 13 meses anteriores. A CNI também produz um índice nacional de expectativa do consumidor. O próximo deve ser divulgado hoje.

A sondagem industrial da CNI inclui, além de informações sobre os níveis de atividade, de estoques e de utilização da capacidade instalada, dados sobre expectativas em relação à demanda, volume de exportações, compras de matérias-primas e número de empregados. As expectativas de demanda, quantidade exportada e compra de material permaneceram positivas e com indicadores iguais aos de janeiro.

Em relação ao número de empregados, o otimismo demonstrado foi um pouco maior que o do mês anterior, porque o índice passou de 51,1 para 51,8 pontos. Mas é importante lembrar, quanto a este último indicador, a redução do emprego industrial no ano passado. Embora tenham procurado reter a mão de obra, especialmente a de maior qualificação, as empresas do setor acabaram demitindo. Foi uma das consequências do baixo nível de atividade nos últimos três anos, com retração em 2012 e modestíssima recuperação em 2013.

A presidente Dilma Rousseff tem alardeado a abertura de postos de trabalho nos últimos anos, mas tem omitido alguns detalhes muito importantes para a avaliação do quadro atual e das perspectivas econômicas do País. Os serviços têm sido a principal fonte de novos empregos, em atividades pouco produtivas. Ocupações de qualidade muito superior seriam criadas pela indústria, se o governo houvesse dado mais atenção às condições de eficiência e de competitividade do setor.

O baixo poder de competição da indústria tem resultado na perda de fatias tanto no mercado externo quanto no interno, como têm mostrado os números oficiais do comércio e os levantamentos da CNI. A sondagem recém-divulgada aponta algum otimismo em relação às exportações. Mas esse otimismo, no conjunto, é ligeiramente menor que o registrado um ano antes, no caso da indústria de transformação. Em março de 2013, o indicador de expectativa em relação à quantidade exportada estava em 54,8 pontos. A nova sondagem apontou 53,3.

Uma taxa de câmbio mais desvalorizada poderá dar algum impulso às exportações, mas o poder de competição da indústria depende de outros fatores, alguns externos, como a logística, outros internos, como a produtividade da mão de obra. Com o primeiro trimestre quase encerrado, é difícil de apontar alguma melhora significativa no quadro.

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