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A indústria em marcha à ré

A produção industrial deve encolher 5% em 2016, em mais um ano de contração, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI). A projeção é pior que a dos economistas do setor financeiro e das consultorias. Pelos cálculos do mercado, o produto da indústria diminuirá 4,5% neste ano, segundo a pesquisa Focus divulgada na segunda-feira pelo Banco Central (BC). “Não vemos nenhuma melhora, nem para o segundo semestre”, disse o gerente executivo de Política Econômica da CNI, Flávio Castelo Branco, ao comentar os indicadores do setor divulgados ontem. Em recessão desde o segundo semestre de 2014, a economia brasileira deve continuar entre as de pior desempenho neste e no próximo ano, de acordo com as estimativas de entidades multilaterais e de organismos privados.

02 Março 2016 | 02h55

A diferença de perspectivas acaba de ser confirmada mais uma vez pelos números da Confederação e pelas previsões de gerentes de compra do setor industrial coletadas em vários países pela Markit Economics, uma agência global de informação financeira.

Na maior parte do mundo avançado o índice dos gerentes de compras do setor industrial permanece acima de 50 pontos – um sinal de expectativa de crescimento, embora modesto, numa fase de muita preocupação e de muita incerteza quanto ao ritmo da recuperação econômica. As dúvidas foram reforçadas nas últimas semanas por dirigentes e economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Mas permanece, entre executivos da indústria, a aposta em algum crescimento neste ano.

Nos Estados Unidos, a maior economia, o índice dos gerentes de compras do setor industrial caiu de 52,4 em janeiro para 51,3 em fevereiro, segundo a Markit Economics. O próprio ambiente de insegurança, dominante na maior parte do mundo, tem freado as encomendas à indústria. Mas a economia americana, de acordo com a última avaliação disponível, cresceu 2,4% em 2015, um resultado nada desprezível. O desemprego em janeiro ficou em 4,9%, uma das menores taxas do mundo.

Também na Europa as previsões continuam na área positiva, apesar dos temores dos empresários e analistas. Na zona do euro, o índice dos gerentes de compras diminuiu de 52,3 em janeiro para 51,2 em fevereiro, o menor nível em 12 meses. Mas o número acima de 50 aponta crescimento da produção industrial pelo 32.º mês consecutivo, um desempenho muito diferente do observado no Brasil nos últimos anos. Além disso, o desemprego nos países da união monetária passou de 10,4% em dezembro para 10,3% em janeiro, o nível mais baixo desde agosto de 2011. No Brasil, os últimos números da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, a mais ampla, são dos meses de setembro a novembro e indicam um desemprego de 9% da força de trabalho. Não haverá surpresa se novos levantamentos mostrarem desemprego mais alto no fim de 2015 e no começo deste ano.

A desocupação brasileira é muito maior que a americana e muito parecida com a da zona do euro e o cenário no Brasil é de recessão prolongada. Não há como continuar atribuindo a crise brasileira a choques externos, embora a presidente Dilma Rousseff e companheiros insistam nesse mito.

O índice dos gerentes de compras da indústria brasileira passou de 47,4 pontos em janeiro para 44,5 em fevereiro, segundo a Markit. “Em meio a evidências de uma economia cada vez mais frágil e de uma consequente queda da demanda, o nível de novas encomendas às indústrias brasileiras caiu em fevereiro”, de acordo com o relatório.

Pelos indicadores da CNI, o uso da capacidade instalada em janeiro chegou a 75,9%, o nível mais baixo da série iniciada em 2002. Se a demanda se reanimar, as indústrias ainda terão muita capacidade para ocupar antes de fazer novos investimentos em máquinas, equipamentos e instalações, comentou Castelo Branco. Até o início da recuperação o caminho deve ser longo e áspero.

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