A indústria volta a investir

A indústria volta a investir

Os empresários voltam a investir com entusiasmo depois da crise. A capacidade produtiva das fábricas poderá aumentar 14,6% em 2010 ? a maior variação em oito anos ?, se forem executados todos os planos de investimento, calculam os economistas da Confederação Nacional da Indústria (CNI). A base da estimativa é a sondagem realizada em janeiro e fevereiro com 723 empresas. A tendência é confirmada pela principal agência financiadora de projetos: no primeiro bimestre, a procura de empréstimos para a compra de máquinas e equipamentos foi 226% maior que a de um ano antes e 199% superior à dos primeiros dois meses de 2008, de acordo com o BNDES. Tem havido atrasos na liberação do dinheiro e fala-se em congestionamento por causa da grande demanda. A boa disposição dos industriais é uma excelente notícia. O consumo continua crescendo com rapidez e é preciso correr para ampliar a capacidade de oferta. Sem isso, haverá um sério risco de pressões inflacionárias e de problemas nas contas externas.

, O Estadao de S.Paulo

24 Março 2010 | 00h00

A capacidade produtiva deverá crescer 23,8% nos próximos três anos, segundo a projeção da CNI, baseada nos planos de investimento e nas decisões já tomadas pelos industriais. A maior expansão deverá ser a do setor de bens de consumo, 16% em 2010 e 27,1% em três anos. O próprio setor de máquinas e equipamentos deverá crescer, com previsão de aumento de capacidade de 15,4% neste ano e de 25,9% até 2012. Para a indústria de bens intermediários, as estimativas são de 13,8% e 21,7%.

A procura de crédito para máquinas e equipamentos tem sido estimulada, segundo o BNDES, pela redução dos juros e pelas condições de pagamento mais flexíveis adotadas, no ano passado, como complementos das ações contra a crise.

Como resposta à recessão, o governo também ofereceu estímulos fiscais a quem investisse na ampliação e na modernização da capacidade. Isso não foi suficiente para impedir uma forte contração dos investimentos, no ano passado, mas os números teriam sido provavelmente piores, sem os incentivos. Agora, segundo fontes de Brasília, já se discute no Ministério da Fazenda a possível prorrogação de alguns daqueles estímulos pelo menos até o fim do ano.

A ideia é positiva, mas, como sempre, o governo contempla uma solução incompleta e provisória para um problema grave. Com ou sem recessão, o investimento brasileiro tem sido insuficiente para garantir ao País o poder de competição necessário para a ampliação da presença no mercado global. O setor empresarial investe mais que o governo, mas, ainda assim, aplica menos que o necessário para enfrentar os exportadores mais dinâmicos.

Parte importante do problema é o peso excessivo dos impostos. Mesmo quando a empresa investe, sua capacidade de competir cresce menos do que seria possível, se a carga tributária fosse menor. Impostos e contribuições elevam o custo das máquinas e equipamentos, num processo irracional, e enfraquecem os produtores brasileiros diante dos concorrentes estrangeiros.

Soluções parciais e provisórias podem atenuar as dificuldades, mas não eliminarão as desvantagens das empresas brasileiras. Em oito anos, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nunca fez nada mais audacioso que a inclusão de remendos na colcha de retalhos do sistema tributário. O governo anterior cumpriu uma importante pauta de reformas institucionais, mas deixou a grande mudança dos impostos para o sucessor. A tarefa, politicamente complicada, será novamente transferida para o governo seguinte.

Mas o fortalecimento do sistema produtivo não depende apenas do investimento na indústria, nos serviços privados e na agropecuária. Depende também, e em proporção relevante, da ampliação e da modernização da infraestrutura. Cabe ao governo conduzir esse tipo de investimento, diretamente, por meio de parcerias ou ainda de concessões ao setor privado.

Nenhum desses esquemas funcionou com um mínimo de eficiência nos últimos anos. Além de ter sido incapaz de elaborar e executar projetos diretamente, o governo quase abandonou, em parte por ideologia, os esquemas de concessão e de cooperação com o setor privado.

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