A inevitável política

Platão: ‘A punição que os bons sofrem quando se recusam a agir é viver sob o governo dos maus’

*Murillo de Aragão, O Estado de S.Paulo

18 Novembro 2017 | 03h06

A sociedade está despertando para a política. Finalmente está descobrindo que todos nós somos políticos, até quando queremos ficar longe da política. A omissão é uma atitude política. Votar em branco é uma ação política. Falar mal de políticos é um ato político. Não querer falar de política também é um ato político. Tudo é política, mesmo quando não queremos que seja.

A política nos envolve e nos sufoca praticamente desde que nascemos. E termina sendo algo inescapável. Assim como a morte e o nascimento, a política é uma das poucas questões inevitáveis na vida. Podemos até evitar a vida em sociedade, mas nunca nos livraremos da política. Pois ao nos livrarmos da vida em sociedade estamos mandando uma mensagem política. Ela é como uma sina que nos persegue. E nem adianta desligar o noticiário quando o volume de informações políticas ultrapassa o necessário e se torna uma pregação fundamentalista.

Imagine se alguém decidir não falar sobre política. Ou nem sequer votar. Ou virar morador de rua. Ou invadir um espaço público, tomar banho na fonte da praça, viver de caridade e dormir embaixo de pontes ou viadutos. Tudo o que fizer vai ter repercussão, com maior ou menor intensidade, e sempre será uma expressão política.

É assim que devemos encarar a política, como algo que inunda todos os espaços sociais e a vida humana. A partir de certa idade, antes mesmo da maioridade eleitoral, a política já se faz presente em nossa vida. Tanto de uma forma passiva, quando usamos os serviços públicos, quanto ativamente, ao expressarmos nossas opiniões ou nos omitirmos.

A inevitabilidade da política termina determinando o resultado da política sobre nossa vida. Como? Pelo fato de que a política se move pela qualidade dos inputs que recebe da sociedade. Se os inputs são bons, a política tende a ser melhor. Mas o que torna os inputs melhores? A qualidade do que é transmitido pela sociedade e os canais de transmissão. Uma analogia básica com o sistema elétrico: temos a geração, a transmissão, a distribuição e o consumo.

No Brasil, a geração dos inputs é ruim pela participação incompleta e desinteressada, pela educação precária e pela pobreza de princípios da nossa sociedade, entre outros motivos. A transmissão é precária, já que a difusão de informações não é das melhores e o sistema eleitoral que alimenta nossa representação é poluído, deturpado e desequilibrado.

A distribuição dos resultados da política também é desigual, pois retrata um sistema social e político doente. A desigualdade na distribuição reflete o poder das corporações, herança das Ordenações Manuelinas e dos interesses específicos sobrepujando o interesse geral. O processo eleitoral também é deturpado pelo abuso do poder econômico e sindical, pela superexposição de interesses particulares. O abandono da política nos traz uma perversa ressaca que denigre, reduz e destrói o interesse comum.

Todos os malfeitos descobertos pelo mensalão e pela Operação Lava Jato revelam o abandono da política e a indisposição que tais fatos causaram. A corrupção exacerbada retirou recursos da sociedade, direcionou esforços para obras desnecessárias, enriqueceu indevidamente uns e outros e, o pior de tudo, tirou a vitalidade econômica da Nação.

Somos menos do que podemos ser e, ao abandonarmos a política, reforçamos nossa incapacidade de atingir o potencial possível. A culpa pelo abandono é sobretudo dos mais educados. Aqueles que, em ambientes elegantes, criticam as reformas que não andam ou a qualidade pífia de nossa política. Mas não gostam de arregaçar as mangas para tentarem melhorar o País.

Reconhecer a inevitabilidade da política, reconhecer que sem política não há salvação, é o começo necessário. E o grave erro do nosso tempo é destruí-la como meio e como modo de ação. A má prática política deve ser combatida politicamente e, claro, judicialmente. Mas não se pode criminalizá-la nem reservar à sociedade um papel de abandono voluntário da política. Quem quer mandar de forma autoritária quer a sociedade fora da política. Quer dizer: “Não se metam com a política, pois ela é do mal”. No entanto, se ficamos longe da política, ela ficará cada vez mais longe da sociedade.

Para enfrentar o desafio de uma melhor distribuição dos efeitos das políticas públicas temos de participar da geração de novos políticos e das novas práticas. As redes sociais e os limites de gastos eleitorais abrem boas perspectivas para revitalizar a nossa política. Aos poucos, nossas elites começam a acordar para a inevitabilidade da política. Movimentos como o Renova estimulam a participação de jovens lideranças no processo eleitoral. São um bom caminho, pois partem do princípio de que fora da política e da participação no processo político não há salvação.

Ainda que o resultado eleitoral represente apenas uma minoria de novos políticos no Congresso, a oxigenação será relevante para reforçar as novas práticas políticas que a sociedade tanto deseja. O esforço político não começa nem acaba com as eleições. A mobilização em favor de boas teses e de maior participação deve ser permanente. A renovação não deve aguardar os ciclos eleitorais. Deve ser um processo contínuo, com o uso dos canais de transmissão que as redes sociais permitem, com o acompanhamento da agenda nacional e com uma atitude crítica acerca do que é debatido.

Concluo dizendo que não pretendo criar uma teleologia ou narrativa de que apenas a participação vá, de forma inevitável, resultar em melhores políticas. Mas, certamente, poderá representar a possibilidade de termos melhores políticas. O que é um passo adiante da situação em que vivemos. Sempre vale a pena lembrar Platão: “A punição que os bons sofrem quando se recusam a agir é viver sob o governo dos maus”.

*Advogado, consultor, mestre em ciência política e doutor em sociologia pela UNB, é autor do livro ‘Parem 

as máquinas – Crônicas de nosso tempo’ (Ed. Sulina)

 

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