A inflação como promessa eleitoral

Inflação disparada virou bandeira política e promessa eleitoral. Em campanha pela reeleição, a presidente Dilma Rousseff e seus trapalhões esconjuram toda proposta de conter a alta de preços e conduzi-la a um nível mais civilizado e mais compatível com os padrões internacionais. Baixar a meta de inflação produzirá desemprego, arrocho salarial e recessão, disse o ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, segundo a Folha de S.Paulo. Alguns dias antes, sua chefe, a presidente da República, havia criticado a proposta de baixar o alvo para 3%, como se essa fosse uma receita certeira para levar o desemprego a uns 8% ou até mais. A propósito, a desocupação no Brasil está mesmo na faixa de 5%, como indica a pesquisa tradicional do IBGE, limitada a seis regiões metropolitanas, ou na de 7%, como apontou Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) contínua, realizada em 3.500 municípios?

Rolf Kuntz,

17 Maio 2014 | 02h03

Prometer inflação elevada para conquistar ou manter eleitores pode parecer muito estranho a quem desconhece o Brasil. Mas espanta muito menos quando aumenta a familiaridade com o País. Afinal, se o ministro do Esporte promete aos visitantes um ambiente pelo menos tão seguro quanto a guerra do Iraque, os padrões de normalidade geralmente aceitos deixam de valer. Essa convicção se reforça quando o chefe da Casa Civil confirma e defende o represamento de preços, para conter a inflação, e é desmentido um dia depois pelo ministro da Fazenda.

Admitindo-se boa fé, só uma escandalosa ignorância da economia internacional, e até da sul-americana, pode explicar a paixão da troupe de governo por uma inflação em torno de 6%. Sim, em torno de 6%, porque esse tem sido o padrão brasileiro a partir de 2008.

Nesses anos, os preços agrícolas subiram e desceram nas bolsas internacionais e o real oscilou no mercado cambial. Ninguém pode seriamente atribuir a inflação nesse longo intervalo - resistente e quase constante - a choques desta ou daquela categoria de preços ou a impactos do câmbio.

A alta de preços em 12 meses pouco variou nesse período. Diminuiu por intervalos muito breves e mais de uma vez bateu no limite da margem de tolerância, 6,5%.

Na medida gregoriana, o produto interno bruto (PIB) cresceu rapidamente só em 2008 (5,2%) e em 2010 (7,5%, depois de uma recessão). Nos outros anos o resultado foi miserável: contração de 0,3% em 2009 e expansão de 2,7% em 2011, apenas 1% em 2012 e 2,3% em 2013, mas este número ainda será revisto. Com o novo cálculo da produção industrial, o aumento do PIB poderá ficar um pouco maior, mas com certeza continuará abaixo de medíocre.

Apesar da pífia expansão econômica, a inflação anual pouco mudou e permaneceu muito acima dos níveis observados em outros emergentes. O Brasil é uma raridade no quadro internacional, com essa combinação de baixo crescimento econômico e rápido aumento de preços. A diferença entre a inflação brasileira e as taxas observadas em outras economias é um permanente fator de desajuste cambial. Qualquer pessoa medianamente informada é capaz de reconhecer esse fato - menos, é claro, o governo brasileiro e uma parte do empresariado industrial.

Empresariados vivem cobrando câmbio mais favorável, como se alguma taxa cambial servisse, por mais que alguns meses, para compensar a baixa produtividade - tanto empresarial quanto sistêmica -, os custos elevados dentro e fora da fábrica, a insuficiente inovação e outras desvantagens. Em contrapartida, raramente um líder empresarial pressiona as autoridades para conter e tornar mais eficiente o gasto público ou para combater com mais eficiência a alta de preços.

Com a política centrada no estímulo ao consumo e na distribuição seletiva de benefícios fiscais e financeiros, nada mais previsível que a estagnação da indústria e seu enfraquecimento diante da concorrência externa. A participação das importações no consumo de bens industriais alcançou um novo recorde no primeiro trimestre deste ano, 22,5%. No começo de 2007 estava em 17%. Subiu até 20% no fim do ano seguinte, caiu até 15,9% no começo de 2010 e voltou a subir. Não se trata, convém sempre lembrar, do efeito de uma abertura maior da economia brasileira, uma das mais protegidas do mundo, mas do resultado de uma ineficiência cada vez mais danosa.

A redução do emprego industrial é um desdobramento dessa história. Em março, o número de assalariados na indústria foi 0,2% maior que em fevereiro, mas 1,9% inferior ao de um ano antes. De janeiro a março o total foi 2% menor que no primeiro trimestre de 2013.

A combinação de inflação elevada, destruição dos empregos mais decentes, aumento de juros e redução de alguns estímulos seletivos já se reflete no consumo. Em março, o comércio varejista restrito vendeu 1,1% menos que um ano antes. As vendas do varejo ampliado (com inclusão de veículos, autopeças e material de construção) foram 5,7% inferiores às de março de 2013. A mágica do consumo perde força.

O PIB do primeiro trimestre ainda será divulgado, mas o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), divulgado na sexta-feira, reforça a avaliação de um quadro muito ruim. Esse indicador diminuiu 0,11% de fevereiro para março. No primeiro trimestre foi apenas 0,3% maior que nos três meses finais de 2013 e 1,02% superior ao de janeiro a março do ano passado. O aumento acumulado em 12 meses ficou em 2,11%. Todos os números apontam uma desaceleração a partir do fim do ano. Nesta altura, o governo deve torcer pela mera repetição do mau resultado de 2013. Mas a fórmula para fortalecer a economia nos próximos anos é bem conhecida no Palácio do Planalto: mais do mesmo, com o cuidado especial de manter a inflação elevada.

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