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A inflação continua solta

Recessão machuca, mas tem duas serventias, pelo menos em países normais. Uma delas é frear a alta de preços, contendo a procura e cortando o combustível dos aumentos. A outra é facilitar o conserto das contas externas. No Brasil só se tem visto o segundo efeito, e da pior maneira – mais pela redução das importações e gastos no exterior do que pelo aumento da receita em dólares. Quanto à inflação, segue lépida e robusta, como se a economia estivesse crescendo em ritmo asiático. Os preços ao consumidor continuam subindo rapidamente, como confirma o IPCA-15 de fevereiro, prévia do indicador oficial, embora os negócios permaneçam no atoleiro, depois de mais de um ano de contração econômica. Todas as projeções indicam mais um ano de atividade em baixa, mas poucos apostam numa inflação muito mais suportável que a de 2015, quando o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a referência oficial, subiu 10,67%.

O IPCA-15 de fevereiro aumentou 1,42%, bem mais que o de janeiro, quando a variação bateu em 0,92%. A alta acumulada em 12 meses chegou a 10,84%. O número final do mês deve ser divulgado no começo de março. Poderá ser menor que o da prévia, mas com certeza pouco animador. Dirigentes do Banco Central (BC) têm reiterado, no entanto, uma previsão razoavelmente otimista. Segundo eles, a taxa de 12 meses cairá cerca de dois pontos até o fim do semestre. Confiam na ação combinada de dois fatores – a recessão e os juros de 14,25% ao ano.

Analistas do mercado puseram em dúvida essa redução, depois de conhecido o IPCA-15 de fevereiro. Alguns até indicaram a disposição de corrigir, para mais, suas previsões para este ano. Os mais otimistas falaram sobre uma desaceleração dos aumentos nos próximos meses, mas ainda estimando uma inflação em torno de 8% até o fim de 2016.

As projeções formuladas por economistas de instituições financeiras e de consultorias subiram desde o começo do ano. Muitos ainda apostam num resultado inferior aos 10,67% do ano passado, mas a distância entre as previsões e esse número tem diminuído rapidamente. A expectativa piorou de forma acentuada a partir da reunião de janeiro do Comitê de Política Monetária (Copom).

A maioria do Comitê, formado por dirigentes do BC, preferiu evitar uma nova alta de juros, contrariando, de forma surpreendente, as indicações fornecidas durante um mês e meio. Na ocasião, a piora repentina das condições internacionais foi mencionada como principal motivo da decisão.

A manutenção dos juros em 14,25% foi interpretada como submissão à presidente Dilma Rousseff. Seria um sinal de tolerância à inflação e isso foi incorporado nas projeções dos economistas do setor privado. Semanas depois surgiu uma nova informação: o BC já havia, antes da reunião do Copom, estimado para 2016 uma contração econômica próxima de 3%. No fim do ano passado a projeção estava em –1,92%.

Permanece a questão: o BC estará disposto a aceitar uma inflação parecida com a de 2015, mantendo ou reduzindo os juros para evitar uma pressão maior sobre a atividade? O presidente do BC, Alexandre Tombini, respondeu numa entrevista recente a uma parte da pergunta. Não há, segundo ele, perspectiva de redução dos juros. Além disso, ele e outros diretores têm reafirmado o compromisso com a busca da estabilidade de preços.

Não está claro se o respeito a esse compromisso envolverá, nos próximos meses, novos aumentos de juros. Não há, portanto, sinais de uma ação mais dura para a contenção dos aumentos. A instabilidade cambial continuará sendo um fator de insegurança. A indexação, refletindo a alta inflação acumulada em 12 meses, ainda afetará fortemente boa parte dos preços. As contas públicas, um dos principais combustíveis dos aumentos, permanecem desajustadas e no rumo, tudo indica, de mais um amplo déficit primário (isto é, sem contar os juros). Por enquanto, resta apostar na recessão como principal fator anti-inflacionário. Qual a alternativa, quando falha o governo?