A irmã de Freud

Vi a casa: número 20, Maresfield Gardens, Londres. Ali Freud morou um ano até setembro de 1939, quando morreu. Escapara dos nazistas em 1938, levando consigo a mulher, a cunhada, a filha, o filho, o médico com sua própria família, duas domésticas, o cachorrinho, a biblioteca e enorme coleção de objetos comprados de antiquários. Para trás deixou as irmãs, que morreram em campos de concentração.

Eliana Cardoso *,

13 Fevereiro 2013 | 02h05

Li Freud's Sister (Penguin). O escritor macedônio Goce Smilevski dá voz a uma delas, Adolfina. O romance baseia-se em fatos, porém cria no leitor o sentimento desconfortável de que, ao retratar Sigmund Freud como vilão, o autor busca a polêmica. Ao mesmo tempo, ao narrar a vida de Adolfina como cheia de crueldade e loucura, Smilevski inventa uma obra de arte que muitos leitores acharão fascinante e outros, controversa.

Uma irmã leva à outra e eu, da de Freud, chego à de Shakespeare, invenção de Virgínia Woolf no ensaio Um teto todo seu. O que teria sido a vida da irmã de Shakespeare se ela tivesse existido e nascido com o talento do irmão? Responde Woolf: "Qualquer mulher nascida com um grande talento no século XVI teria certamente enlouquecido (...). Pois não é preciso muito conhecimento de psicologia para se ter certeza de que uma jovem altamente dotada que tentasse usar sua veia poética teria sido tão contrariada e impedida pelas outras pessoas, tão torturada e dilacerada pelos próprios instintos conflitantes, que teria decerto perdido a saúde física e mental".

Como em vários países ainda hoje, nos anos em que Virgínia Woolf escreveu e Freud se mudou de Viena para Londres, séculos de inércia pautavam a vida feminina. No quarto capítulo de Freud's Sister, Adolfina sofre com um aborto, intervenção então ilegal na Europa. Hoje a legalização mudou esse cenário na maioria dos países desenvolvidos, mas em outros continua a causar traumas. O tema continua ligado à pergunta do que querem as mulheres.

A mulher quer duas coisas fundamentais, que parecem garantidas ao homem. A primeira é a soberania do próprio corpo. É essa soberania do corpo que lhe garante que não sofrerá mutilações (ao contrário do que ocorre no Egito), escolherá seus parceiros sexuais (ao contrário do que ocorre na Índia) e decidirá quando ter filhos (ao contrário do que ocorre onde não existe acesso irrestrito aos serviços de saúde reprodutiva).

Em segundo lugar, ela quer a oportunidade de ganhar uma renda com seu trabalho e dela dispor como julgar conveniente. Dinheiro é fundamental. Mas seria muito pouco enfatizar apenas o papel do dinheiro na desigualdade entre os gêneros. A mudança de percepções e atitudes tem importância similar. Precisamos - para homens e mulheres - de uma mentalidade andrógina, como a de Shakespeare, e não de uma mentalidade machista, como a de Freud. Dizia Virgínia Woolf em Um teto todo seu: "É fatal ser um homem ou uma mulher, pura e simplesmente; é preciso ser masculinamente feminina ou femininamente masculino".

Durante milênios o discurso da diferença entre os gêneros contribuiu para manter as mulheres sob o jugo masculino. A mulher que tem sucesso nos negócios ou na política leva a pecha de masculina ou agressiva ou, simplesmente, de feia, enquanto ninguém se ocupa de discutir a beleza de Getúlio Vargas ou Hugo Chávez.

Essa mentalidade muda devagar. No evento de formalização do projeto Women Entrepreneurship Banking - uma parceria entre o BID e o Itaú Unibanco para a promoção do crédito e outros serviços para mulheres empreendedoras no Brasil - distribuiu-se material à imprensa. Neste material, a diretora do Itaú descreve a necessidade de novos projetos, porque "as mulheres pensam, agem e trabalham de maneira diferente dos homens". Não é por aí, amiga. Esse discurso abre as portas à discriminação e à remuneração diferenciada devida à diferença de gêneros numa mesma atividade. Independentemente de suas características biológicas, homens, mulheres e transexuais são iguais perante a lei.

As infinitas e sutis diferenças entre homens e mulheres (devidas em parte à biologia, em parte à cultura e em parte não explicadas) - assim como as que existem entre homens e homens, entre mulheres e mulheres, entre homossexuais e entre pansexuais - resolvem-se no nível individual. No trabalho a mulher quer competir em condição de igualdade. Por exemplo. Interessa a ela que a lei conceda os mesmos direitos de licença por ocasião do nascimento de uma criança a homens e mulheres, revolucionando a mentalidade fora e dentro de casa.

Portanto, a iniciativa BID-Itaú terá relevância na medida em que a criação de oportunidades de financiamento para mulheres ajudar a reduzir diferenças impostas por discriminações - não por diferenças nas características de gênero - e, ao criar oportunidades, contribuir para o crescimento do País.

Vale entender que o desperdício de talento feminino debilita a economia, o abuso das mulheres corrompe a sociedade e sua marginalização enfraquece o sistema político. A desigualdade de gênero não é apenas moralmente indefensável. Ela é ruim para os negócios e ruim para a economia. Recomendo a leitura do relatório Gender Inequality, preparado pelo Emerging Markets Symposium (disponível a partir de 15/2 no site http://ems.gtc.ox.ac.uk/).

Já se tornou clichê invocar a importância da educação na promoção da mobilidade social, no aumento da produtividade e na redução da incidência de gravidez precoce. Também se conhece a necessidade do apoio do setor privado para soluções criativas no cuidado de crianças e velhos. A igualdade de gênero deveria constituir objetivo nacional e os governos mais esclarecidos terão de se engajar na luta para que, nas condições impostas em empréstimos, as instituições financeiras multilaterais (como o Banco Mundial) incorporem práticas para a promoção da igualdade entre os gêneros. Afinal, como dizem os chineses, as mulheres sustentam a metade do céu.

* Eliana Cardoso é PH.D. pelo MIT e professora titular da FGV-São Paulo.

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