A medida da marolinha

O presidente Lula continua às voltas com o problema que criou quando, em recente visita ao companheiro Fidel, comparou dissidentes cubanos a criminosos presos no Brasil. Sem uma explicação capaz de contornar o mal-estar geral criado por suas palavras, vem recebendo críticas contundentes, no Brasil e lá fora.

Roberto Macedo, O Estadao de S.Paulo

18 Março 2010 | 00h00

Contudo, quanto a outra comparação que fez, dos efeitos da crise nos EUA e no Brasil, a recente notícia de que o nosso produto interno bruto (PIB) caiu 0,2% em 2009 já lhe permite recorrer a uma saída, como outras suas capaz de iludir muita gente. Recorde-se que no início de outubro de 2008, ainda sem saber bem o que vinha pela frente, deixou de lado sua marca registrada, o método Nanp (nunca antes neste país), ou do retrovisor opaco, e voltou-se para o nosso futuro ao afirmar: "Lá (nos EUA), ela (a crise) é um tsunami; aqui, se ela chegar, vai chegar uma marolinha que não dá nem para esquiar."

Agora, com esse resultado do PIB, na sua quase-lógica, poderia dizer: "Eu estava me referindo apenas à taxa de variação do PIB em 2009, negativa, mas pequenina." Se contestado com a menção ao vagalhão, que reduziu em cerca de 1,5% o valor que na ausência da crise o PIB poderia ter atingido 2008, mais 5% que, por baixo, seria o crescimento do de 2009 na mesma situação, com sua criatividade poderia dar uma contribuição à ciência dos movimentos do mar com esta proposição: "A cada vagalhão, em algum momento se segue uma marolinha."

Quanto ao vagalhão, ele está muito evidente nos dados que vieram do IBGE a mostrar que as quedas do PIB nos dois trimestres subsequentes à eclosão da crise (o último de 2008 e o primeiro de 2009) foram tão fortes que a economia tomou três trimestres para se recuperar (do segundo até o quarto do ano passado). Mesmo assim, a série encadeada do índice trimestral do PIB, que tem como base 1995 = 100, revela que o índice do quarto trimestre de 2009 (151,2) ainda estava levemente abaixo do índice do terceiro trimestre de 2008 (152,5), o que estaria a indicar que a recuperação completa só se daria no trimestre corrente. Contudo, com o chamado ajuste sazonal, isso já ocorreu no trimestre passado, ainda que também por uma pequena diferença, pois nos mesmos períodos os valores dos índices foram 149,6 e 150,6, respectivamente. Na realidade, portanto, o Brasil foi bastante afetado pela crise, só recentemente saindo dela.

Também não cabe dizer, como faz muita gente dentro e fora do governo federal, que - 0,2% tenha sido uma taxa boa. Quem diz isso se baseia na comparação com os muitos países que se saíram pior que o Brasil, sendo um sinal da mediocridade aqui reinante que comparações sejam feitas com os piores. Isso serve até como justificativa para corruptos: "Sou, mas muita gente é."

Assim, em lugar de achar bom nos sairmos menos mal, por que não olhar os países que se destacaram com um bom desempenho mesmo na crise, e examinar no que precisamos melhorar o nosso, em crises ou fora delas?

Olhando o próprio grupo a que nos orgulhamos de pertencer, o Bric, nele dois países se destacaram ao sofrerem muito pouco em 2009. Na China e na Índia, o crescimento do PIB, que já era bem mais forte que no Brasil, caiu muitíssimo menos do que aqui. No primeiro caso, a queda foi de cerca de 10% para 8% ao ano, e de perto de 8% para 6% no segundo.

Quanto ao que causa essa diferença relativamente ao Brasil, várias vezes já tratei disso neste espaço, e vou continuar por ter fé no velho dito de que água mole em pedra dura tanto bate até que fura. A grande diferença é que no Brasil é muito pequena a taxa de investimento, aquela parcela do PIB que amplia a capacidade produtiva do País, entre outras formas, via expansão do que já existe ou por meio de novas fábricas, fazendas, atividades de serviços e obras de infraestrutura, entre outros aspectos. Essa taxa, também segundo o IBGE, foi de 16,7% do PIB no ano passado. Mas, na China, por muito tempo ela se tem mantido em torno de 40% e na Índia, próxima de 30%.

Visto de outra forma, nosso desenvolvimento segue hoje um padrão em que, tanto no governo federal como em geral, a ênfase é no consumo, com prejuízo da poupança e do investimento. Predomina uma visão estática e míope do processo produtivo na qual, particularmente no governo Lula, a preocupação maior é redistribuir a riqueza já acumulada, sem equilibrar isso com a necessidade de dinamicamente produzir mais, poupando, investindo e buscando avanços tecnológicos que também acelerem a produção.

Não podemos ficar esperando o tal país do futuro sem nos esforçarmos em bem construí-lo no presente. Hoje continuamos dopados pela visão financista - e a crise mostrou que sempre há gente para financiar tudo, até títulos podres - de que o consumo interno vai se expandir indefinidamente com a ampliação do crédito. E ainda, dada a perspectiva de enormes déficits nas contas correntes com o exterior, de que o País também conseguirá financiá-los com o fluxo de recursos externos, particularmente de investimentos diretos. Ora, esses investidores não são bobos, e aqui vêm buscar remuneração que terá de ser paga. Além disso, seguem com maior vigor para países que se esforçam mais para investir com recursos de sua própria poupança.

Assim, a perspectiva efetiva é a de um futuro com maior dependência externa, aumentando a vulnerabilidade da economia a crises que em algum momento virão, ao mesmo tempo que a capacidade de endividamento interno acabará por se esgotar, impondo limites ao crescimento.

No fundo, muita água vai precisar cair em cima das pedras, pois a dificuldade está nas cabeças duras, em particular a do falso messias e dos que se iludem com ele.

ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), PROFESSOR ASSOCIADO À FAAP, É VICE-PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE SÃO PAULO

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