À mercê de São Pedro

Entre as diversas deficiências dos aeroportos brasileiros, destaca-se a falta ou a obsolescência de instrumentos para permitir pousos e decolagens sob condições meteorológicas adversas. Levantamento obtido pelo Estado mostra que, em razão disso, os aeroportos brasileiros foram fechados 1.804 vezes em 2012, uma média de 5 vezes por dia, números inadmissíveis para um país que se pretende moderno. Os prejuízos econômicos são óbvios, assim como o risco à segurança de voo, mas o aperfeiçoamento dos equipamentos obedece ao mesmo ritmo moroso que tem ditado as reformas dos aeroportos com vista à Copa de 2014 e à Olimpíada de 2016, consideradas urgentes.

O Estado de S.Paulo

07 Abril 2013 | 02h08

O caso mais significativo é o de Joinville, maior cidade e principal polo exportador de Santa Catarina, cujo aeroporto fechou nada menos que 163 vezes no ano passado. Os dados constam de relatório parcial do Núcleo de Acompanhamento e Gestão Operacional, ligado à Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero).

Apesar da importância da cidade, somente neste ano seu aeroporto recebeu um dos equipamentos que permitem a operação com mau tempo, o ILS (Instrument Landing System, sistema para pouso com instrumentos). Nesse caso, trata-se do ILS de categoria 1, com o qual a aeronave é conduzida até uma altura de 60 metros sobre a cabeceira da pista, com visibilidade de ao menos 800 metros, quando então o piloto, se estiver enxergando a pista, decide se tem ou não condições de pousar. É a versão mais simples dessa tecnologia, a mesma que funciona em Congonhas, o segundo aeroporto mais movimentado do Brasil e que fechou 34 vezes em 2012.

Em Guarulhos e no Galeão, operam instrumentos de categoria 2, que permitem pousos com teto de 30 metros e visibilidade de 400 metros. A categoria 3, a mais sofisticada e que permite pousos até com visibilidade zero, ainda não existe em nenhum aeroporto brasileiro.

A necessidade de instrumentos mais complexos é relativa. Na maioria dos aeroportos do mundo, os sistemas intermediários resolvem os problemas habituais, e é por essa razão que somente um punhado deles dispõe de ILS de categoria 3, pois padecem de condições meteorológicas extremas, como tempestades de neve. No Brasil, porém, o que se observa é que, em muitos casos, não existe nem o equipamento básico, como radares.

Os dados mostram que, dos dez aeroportos que mais fecharam no ano passado, cinco não têm sistemas para auxiliar pousos e decolagens com pouca visibilidade. Além de Joinville, são eles Foz do Iguaçu (fechou 94 vezes), Londrina (95 vezes), Navegantes (117 vezes) e Uberlândia (129 vezes).

O relatório resume a situação de 58 aeroportos, dos quais, segundo a Infraero, somente 28 dispõem de algum instrumento. A empresa argumenta que a existência dos equipamentos não garante o pouso e a decolagem, pois o que interfere nos procedimentos são as condições meteorológicas - e a maior parte das ocorrências registradas em 2012 se deu no começo do ano, durante a temporada de chuvas fortes. Trata-se de uma desculpa inaceitável, pois o sistema aéreo brasileiro não pode simplesmente ficar à mercê dos humores de São Pedro.

O ideal, destacam os especialistas, seria que ao menos os principais aeroportos do País pudessem dispor de instrumentos mais avançados. Contudo, isso implicaria em custo não apenas do equipamento em si, mas de treinamento dos pilotos e de adaptação das aeronaves, algo que teria de ser bancado pelas já deficitárias companhias aéreas nacionais. Desse modo, os investimentos, quando acontecem, são pontuais e esparsos, respondendo a demandas imediatas. Como as empresas têm autonomia para decidir em que nível tecnológico vão operar, desde que respeitados os padrões mínimos de segurança, não se espera que haja avanços nessa área.

A Infraero alega que está fazendo os investimentos necessários em diversos aeroportos, o que é uma boa notícia. A má notícia é a de sempre: o processo tem sido lento, confuso e tardio.

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