A ministra toda ouvidos

A presidente Dilma Rousseff resgatou a ex-senadora Ideli Salvatti das profundezas do Ministério da Pesca e confiou-lhe a articulação do Planalto com o Congresso, a razão de ser da pasta das Relações Institucionais, para dar uma lição de hierarquia e disciplina aos companheiros que se engalfinhavam abertamente pelo cargo enquanto ela ainda nem havia assinado o óbito funcional do seu então titular, o também petista Luiz Sérgio. O seu desprendimento para servir ao governo, aliás, pode ser medido pela prontidão com que aceitou ser degredado para o antigo ermo de Ideli.

, O Estado de S.Paulo

14 Junho 2011 | 00h00

Ciente, talvez, de que foi considerada a mulher errada no lugar errado - dado o seu reconhecido pendor para o pugilato político, que ela se fartou de praticar quando líder do governo Lula no Senado -, a paulistana que fez carreira no PT catarinense de imediato tratou de pôr panos quentes na própria imagem. Sem prometer, embora, que se transformará numa "Idelizinha, paz e amor", porque aí também já seria escarnecer da sensibilidade alheia, não perdeu tempo em se declarar toda ouvidos para as demandas reprimidas da base governista.

Recorrendo a uma expressão que pelo menos se destaca dos lugares-comuns do jargão planaltino, prometeu "limpar as prateleiras" onde as reivindicações dos aliados juntam poeira. A recusa de Dilma em se prestar mansamente ao jogo da fisiologia caiu bem junto à opinião pública, farta, com razão, do toma lá dá cá da política convencional. Mas foi preciso que eclodisse o escândalo que derrubou o superministro Antonio Palocci, a partir do qual a base se sentiu livre para falar cobras e lagartos daquele que lhe dera as costas, para se perceber que também havia algo não necessariamente virtuoso na secura da caneta presidencial.

Não que ela apenas refugasse a indicação de apadrinhados a seu ver desprovidos de qualificações para as vagas em questão. "Dilma ouve, ouve, anota e anota, mas não toma as providências pedidas", reclamavam, em coro, os políticos. O problema é que, em regra, ela tampouco tomava a providência de nomear quadros técnicos que considerasse credenciados para as respectivas tarefas. Numa ponta, portanto, irritava a base - estima-se que, juntos, PT e PMDB apresentaram mais de uma centena de candidatos para cargos de segundo e terceiro escalões no governo e diretorias de estatais. Na outra ponta, Dilma emperrava o funcionamento da máquina.

Correndo o risco de incorrer na zanga da chefe, ao expor a face oculta da sua decantada capacidade de gestão, a própria Ideli foi franca ao comentar os efeitos do imobilismo para a administração. "Quem está em dúvida se vai ficar não sabe como agir no cargo, e isso sempre acaba trazendo prejuízo para o governo", observou. "Imagino que assim como acontecia na Pesca, essa situação (nomeações em tese decididas, mas não consumadas) está acontecendo em vários outros Ministérios." Além de esvaziar as prateleiras, a outra incumbência a que a ministra empossada ontem prometeu se dedicar fala menos ao interesse público, como é o caso do bom andamento da administração, do que ao interesse dos políticos.

Trata-se da liberação dos recursos para as emendas parlamentares ao Orçamento, a começar dos tais "restos a pagar" (despesas contratadas em anos anteriores com desembolsos futuros). Ideli, em suma, pretende ter o que oferecer aos políticos. Pretende, porque a transferência das negociações com os aliados no Congresso da Casa Civil para as Relações Institucionais, por si só, não garante que Dilma dê à nova ministra total liberdade de ação. Centralizadora e detalhista, a presidente não é de delegar e cobrar os resultados no fim da linha.

O seu gosto pela microadministração, que talvez encubra uma insuspeitada insegurança, tem sido um estorvo para agilizar a operação interna e aplainar o chão por onde se movem as relações com os parceiros da coalizão de governo. Ela decerto quer o melhor para a sua gestão, mas não pode perder de vista que, à falta de uma tropa de elite de servidores públicos estáveis (não afetados pelo entra e sai dos governantes), o desempenho da máquina depende, menos ou mais, porém inexoravelmente, da barganha política.

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