A miséria da contracultura

Antes os comunistas só queriam os bens dos capitalistas, hoje querem também a alma

*Flávio Rocha, O Estado de S.Paulo

09 Novembro 2017 | 03h04

Se o sustento de Karl Marx (1818-1883) dependesse de sua capacidade profética, o velho comunista teria tido o mesmo destino que imaginou para o proletariado: a morte pela fome provocada pela ganância do capitalismo. Para sua sorte, no entanto, o adiposo alemão tinha lá os seus esquemas pouco ortodoxos para financiar sua vida em Londres e não dependia de eventuais acertos decorrentes de sua míope visão do mundo.

O fato é que o proletariado não morreria de fome, a não ser nos gulags siberianos para onde os bolcheviques despachavam os opositores da ditadura soviética. Ou, ainda hoje, nas franjas das sociedades industrializadas, onde prolifera o lumpesinato arredio à inserção.

É nesse universo moralmente desolador, aliás, que o comunismo busca adesões atualmente. No Brasil, com o proletariado cooptado pelas virtudes do mercado, foi o que sobrou como massa de manobra: uma cracolândia numa área deteriorada de uma metrópole, uma ocupação ilegal do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). A miséria tornou-se a matéria-prima da revolução comunista.

Fora dessas ilhas marcadas pela degradação, a realidade simplesmente ignorou as projeções marxistas. Os trabalhadores braçais, explorados nos primórdios da revolução industrial, passariam a ter acesso à prosperidade material proporcionada pelo capitalismo. E não se tratou de uma melhoria qualquer, mas do maior e mais rápido avanço de que se tem notícia em milênios da História da humanidade.

Tal prosperidade, como costuma acontecer, proporcionou conquistas imateriais nada desprezíveis. O trabalhador não apenas passou a ter acesso a bens de consumo, mas também obteve melhor educação para seus descendentes, o que, por sua vez, acionou o instrumento da mobilidade social – outra vantagem do capitalismo, um sonho que o comunismo não pode oferecer.

Atualmente, no Brasil, o proletariado não quer apenas comprar uma máquina de lavar ou uma geladeira nova. Quer também ampliar seu horizonte de conhecimentos e, sobretudo, deseja que seus filhos tenham um diploma que lhes garanta um futuro melhor.

O surpreendente (para os esquerdistas em geral) desfecho da bem-sucedida aventura capitalista tirou o discurso dos revolucionários de plantão. Ora, se o capitalismo não é o algoz preconizado por Marx, como convencer o proletariado a se insurgir contra ele?

Foi da incoerência presumida nessa questão que surgiu, em meados do século 20, a chamada Escola de Frankfurt, reunindo intelectuais de esquerda dispostos a fazer uma releitura, por assim dizer, da catequese marxista. A ideia era minar as forças inimigas pelos flancos vulneráveis, e não mais atacar frontalmente o regime vitorioso, uma vez que dele se beneficiava a classe social que deveria combatê-lo.

Um dos principais líderes da Escola de Frankfurt foi Herbert Marcuse (1898-1979), que fez uma revisão da prática marxista ao identificar justamente na triste e periférica figura do lúmpen a bala do canhão a ser disparada contra o que se chamava de “sistema”. A cartilha frankfurtiana propõe também a estratégia mais sutil de arrostar os valores tradicionais da civilização ocidental, um patrimônio baseado na herança cultural do racionalismo grego, do Direito Romano e da moral judaico-cristã. Como o capitalismo está assentado sobre esses três pilares, corroê-los seria a nova lógica revolucionária.

Marcuse faz dobradinha com o italiano Antonio Gramsci (1891-1937), de quem já tive a oportunidade de falar recentemente em outro espaço. Ambos engendraram esse marxismo cultural, que é mais perigoso do que o anterior, porque dissimulado. Seus próceres glorificam o conceito de contracultura, que espertamente canaliza insatisfações dispersas e heterogêneas, associando-as de maneira vaga em oposição à sociedade capitalista.

É perigoso porque o solapador dos valores da nossa civilização não está metido num metafórico uniforme do Exército Vermelho. Ao contrário, ele é invisível em sua indumentária civil, agindo dentro das instituições que pretende destruir, onde prepara atalhos para a revolução comunista.

Aos que escutam em meu alerta ecos de alguma improvável teoria conspiratória, sugiro que prestem atenção ao sentido mais amplo de diversas manifestações que procuram corromper valores inestimáveis, como a própria liberdade.

Entre os mais suscetíveis dessa guerra ideológica estão os jovens, ainda carentes de um repertório de referências históricas e filosóficas que lhes permita enfrentar a perniciosa influência dos falsos humanistas. Frequentemente a própria escola se torna um campo de batalha minado pelo ideário nada ingênuo do politicamente correto.

Será que uma educação sexual proselitista da multiplicidade de gêneros é mais importante do que a Matemática? Impregnar na tabula rasa da mente infantil que o capitalismo é uma ameaça inerente à natureza é razoável? Devemos aceitar passivamente que nossos filhos sejam expostos a essa perspectiva simplória, maniqueísta e, sobretudo, errada? São perguntas que nos devemos fazer, se prezamos a democracia, o regime em que o capitalismo encontra as melhores condições para vicejar – e vice-versa.

O ensino é um front importante, sim, mas não é o único. Na imprensa, o contrabando de ilusões socialistas é igualmente notório. Na Justiça, não faltam casos em que o criminoso é vitimizado, numa afronta aos princípios do Direito Romano. Na TV, a novela de sucesso relativiza a importância da família. Entre artistas conceituados, conta ponto apresentar-se em acampamentos do MTST. Enfim, são muitos os agentes do marxismo cultural, suas digitais indefectíveis estão espalhadas pelos diversos aparelhos de formação intelectual.

Nos tempos de Marx, os comunistas só queriam os bens dos capitalistas. Hoje lhes querem também a alma.

*Presidente da Riachuelo, é vice-presidente do Instituto para o Desenvolvimento do Varejo (IDV)

 

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