A morte de 800 imigrantes

A mais nova tragédia envolvendo pessoas que tentavam chegar à Europa por mar vindas da África, desta feita com cerca de 800 mortos de uma só vez, é uma dura lembrança de como têm sido inúteis os esforços para enfrentar o problema da imigração. É o caso de perguntar qual é o número de mortos que a sociedade europeia considerará inaceitável para que finalmente demande uma atitude política firme não só dos governos do continente, mas de toda a comunidade internacional, com a qual esse fardo deve ser dividido - pois, afinal, não se pode esquecer de que na origem desse drama estão guerras e conflitos, na África e no Oriente Médio, cuja responsabilidade, ao fim e ao cabo, não é da Europa.

O Estado de S.Paulo

23 Abril 2015 | 02h06

É evidente que o problema da imigração não se resolverá apenas por um ato de vontade, que abra as portas indistintamente a todos quantos resolvam tentar uma vida melhor em terras europeias, venham de onde vierem. Tal utopia é alimentada por aqueles que têm escuso interesse em desmoralizar as potências ocidentais, retratando-as como indiferentes ao sofrimento humano.

Segundo a agência de segurança de fronteiras da União Europeia, há entre 500 mil e 1 milhão de pessoas na Líbia, neste momento, esperando uma oportunidade para embarcar rumo à Europa. Não é um número trivial - ainda mais considerando-se o aumento brutal em relação a todo o ano passado, quando chegaram cerca de 170 mil refugiados ao continente vindos por mar da África. Nenhum país do mundo teria condições de receber tanta gente em tão pouco tempo.

No entanto, não se pode mais apoiar a política de imigração somente em medidas que tentam transferir o problema para longe do litoral europeu. Ao centrar seus esforços apenas no resgate dos náufragos, as autoridades continentais fingem que o drama de miséria do lado de lá do mar não lhes diz respeito. "Enquanto houver guerras em países vizinhos, as pessoas continuarão a procurar um lugar seguro na Europa", declarou uma autoridade da Comissão Europeia. Para o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, "sem um enfoque europeu comum apoiado na solidariedade, que dê às pessoas a oportunidade de vir legalmente para a Europa, a próxima tragédia é só questão de tempo".

Toda a movimentação diplomática e política que se seguiu à notícia do naufrágio serviu para dar a impressão de que há mesmo grande preocupação com o destino dos imigrantes ilegais. Nos bastidores, porém, há muito ceticismo a respeito dos resultados práticos.

O que se tem, até o momento, é a certeza de que a Itália e a Espanha, os principais pontos de entrada dos imigrantes vindos da África por mar, não podem suportar praticamente sozinhos o peso dessa responsabilidade. Espera-se da Comissão Europeia uma política que divida esse ônus por todos os integrantes da união. Além disso, é necessária uma reforma que adapte as regras de imigração a momentos de crise humanitária, como a que se abateu sobre a África e o Oriente Médio em razão dos conflitos na Síria, no Iraque e na Líbia. Turquia e Líbano já receberam, cada um, mais de 1 milhão de refugiados. Outros tantos estão à espera de uma oportunidade para fugir - e a Europa não pode lidar com eles como se fossem só imigrantes em busca de vida melhor.

Quem tem lucrado com a situação são os "coiotes", que recebem mais de mil euros de cada um dos imigrantes para amontoá-los em barcos pesqueiros e atirá-los em uma viagem suicida. Para alguns países europeus, esse esquema é alimentado pelo programa "Tritão", que faz operações de salvamento dos imigrantes que naufragam tentando chegar à Europa. Somente no último fim de semana, 8,5 mil imigrantes foram resgatados.

Tal programa, dizem esses países, serve como incentivo para a indústria do tráfico de pessoas e, por essa razão, deveria ser reduzido ao mínimo. Mas acreditar que esses imigrantes indesejados deixarão de tentar chegar à Europa somente porque não haverá quem os salve em caso de naufrágio é ignorar o tamanho do desespero que os faz empreender essa viagem de qualquer maneira.

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