A morte do mentor de Kim

À parte os usuais vitupérios contra os hierarcas dos regimes totalitários caídos em desgraça - "desprezível escória humana", "pior do que um cão" -, uma passagem se destaca no texto de 51 parágrafos e 2.700 palavras com que a agência noticiosa oficial norte-coreana descreveu ontem o processo consumado com o fuzilamento a rajadas de metralhadora de Jang Song-thaek, o ex-mentor do ditador Kim Jong-un.

O Estado de S.Paulo

14 Dezembro 2013 | 02h05

Transcrevendo o que teria sido a sua confissão diante do tribunal militar que o sentenciou por uma baciada de delitos - de traição política a costumes dissolutos -, a agência atribui-lhe o intento de dar um golpe de Estado "valendo-me de oficiais do Exército que me eram próximos ou forças sob controle dos meus confidentes". E mais: "Pensei que o Exército poderia aderir ao golpe se as condições de vida do povo e da tropa continuassem a se deteriorar".

Seja lá quem tenha ordenado a divulgação dessas palavras, trata-se de uma extraordinária admissão da existência de divisões no cerne do poder compartilhado pelo Partido Comunista e as Forças Armadas. Trata-se também de uma não menos surpreendente referência à penúria que, sob sucessivos líderes, o feudo do clã Kim impõe há 65 anos ao povo do mais fechado país do mundo, enquanto investe o que tem e não tem em tecnologia militar e no fabrico de bombas atômicas.

Pelo manual das tiranias que Pyongyang sempre seguiu ao pé da letra, a versão oficial dos fatos que levaram à "liquidação física" de Jang, como se diria na Rússia de Stalin, conteria uma retratação abjeta do traidor e a confissão de que as suas tentativas de aliciamento foram recebidas pelos interlocutores com indignação e repulsa - tornando possível desvendar a trama que pretendia urdir e pela qual recebeu o merecido castigo. Alusões a potenciais descontentamentos podem espelhar conflitos na cúpula do reino de Jong-un.

É possível que ele tenha tentado afirmar a sua autoridade diante dos adversários adotando o que um analista sul-coreano chama "terapia de choque", seja pela velocidade que impôs à eliminação de Jang - passou-se menos de uma semana entre o seu aviltamento político e a execução -, seja pelo fato sem precedentes da exibição dos seus piores momentos. Graças aos serviços sul-coreanos de inteligência, já se sabia no exterior que Jang estava em sérios apuros, tanto que dois de seus assessores tinham sido fuzilados.

No Norte, porém, embora o número dois do regime tenha subitamente sumido do noticiário e sua figura tenha sido apagada na proposital retransmissão de imagens de arquivo, o público não podia imaginar o que lhe seria dado ver - a detenção de Jang por um grupo de militares, em meio a uma sessão do pleno do Politburo do Partido, e a sua retirada do recinto. Ele reapareceria uma única vez: sendo levado, algemado, ao tribunal que ordenaria a sua execução.

Diferentemente do que se noticiou, Jang não era tio biológico de Kim. Ele era casado com a astuciosa Kim Kyong-hui, esta sim irmã do Kim-pai, Jong-il. Mas é certo que o casal (ambos detentores da patente de general) foi incumbido de preparar para o poder o rubicundo sobrinho bon vivant, de presumíveis 26 anos - e de preparar a elite dirigente para a sua inesperada ascensão, depois de Jong-il decidir que Jong-un passaria à frente dos irmãos. Com a morte do pai, assumiu no final de 2011.

Não faltou quem previsse que, por influência de Jang, o jovem líder, que conhecia os confortos ocidentais por ter vivido na Suíça, tenderia a adotar reformas econômicas à moda de Pequim: atração de investimentos externos e liberalização gradativa do mercado interno, mantendo intocada a ditadura. Ocorre que, pelo pouco que se sabe das sessões de esgrima nos palácios de Pyongyiang, Jang seria um solitário defensor do modelo chinês.

Se a sinofilia de Jang foi o que o liquidou, a linha-dura prevaleceu. Mas a história não deve terminar por aí. Observadores ocidentais e sul-coreanos esperam uma forte onda de expurgos para Kim Jong-un se firmar no poder - com novos tutores.

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